terça-feira, 26 de junho de 2018

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE

Eugène Delacroix

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE
O tríplice lema, a Maçonaria e os Direitos Humanos

Em Maçonaria, são muitos os temas que originam debate, discussão e dúvida.
Por um lado, o facto de ser uma organização iniciática e discreta faz com que, muitas sejam as teorias, contos e ditos à volta da nossa Augusta Ordem, por outro lado, o facto de ser uma sociedade cujo conhecimento é transmitido por símbolos, rituais e por graus, faz com que, mesmo no seio dos seus membros existam dúvidas sobre a sua história ou muitos dos seus aspetos ritualísticos e filosóficos, sendo, pois, o ato de estudar Maçonaria, por si só um ato continuo de “polimento da pedra bruta”!
O tríplice lema da Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade é também por si só um espectro de grande discussão interna.
Várias são as versões:
•        O lema, foi criado, e é atualmente usado pela Maçonaria Universal?
•        O lema, é apenas usado pela maçonaria francesa liberal, ou se quisermos pela maçonaria dita irregular?
•        O lema, foi adotado pela maçonaria após a revolução francesa?
•        O lema, é erradamente associado à maçonaria?
Independentemente das questões levantadas, do ponto de vista filosófico, o tríptico Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, está intimamente, a meu ver, ligado aos princípios maçónicos, independentemente da corrente ou ordem maçónica.
Para além da maçonaria, tais princípios também inspiraram a Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgada pela ONU, em 10 de dezembro de 1948. Assim, ao abordar o tema da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade neste balaústre, decidi fazer um paralelismo entre o tríplice lema, a ação da Maçonaria e os Direitos Humanos, através da sua declaração universal.
Do ponto de vista histórico, a primeira declaração dos direitos humanos da época moderna é a Declaração dos Direitos da Virgínia de 12 de junho de 1776, escrita por George Mason e proclamada pela Convenção da Virgínia. George Mason foi um destacado politico americano, representante do estado da Virgínia na Convenção Constitucional Americana e com ligações à Maçonaria, tido como maçon embora, sem que haja prova documental da sua filiação.

Este importante documento influenciou, Thomas Jefferson na redação da declaração dos direitos humanos existente na Declaração da Independência dos Estados Unidos da América de 4 de julho de 1776. Thomas Jefferson, foi como se sabe, o terceiro presidente do EUA e um dos pais fundadores da nação americana, tendo sido o principal autor da declaração de independência e sobre o qual existem provas da sua suposta ligação à maçonaria.

Podemos ainda referir referências maçónicas na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 debatida e aprovada na Assembleia Nacional Francesa fruto da revolução francesa, também ela com elevada influencia da Maçonaria e na qual definia o direito individual e coletivo das pessoas, tendo alargado o campo dos direitos humanos e definido os direitos económicos e sociais.

Mas o momento mais importante na história dos Direitos do Homem, é no período de 1945-1948. Em 1945, os Estados tomam consciência das tragédias e atrocidades vividas durante a 2ª Guerra Mundial, o que os levou a criar a Organização das Nações Unidas (ONU) em prol de estabelecer e manter a paz no mundo. Foi através da Carta das Nações Unidas, assinada a 20 de junho de 1945, que os povos exprimiram a sua determinação "em preservar as gerações futuras do flagelo da guerra; proclamar a fé nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e valor da pessoa humana, na igualdade de direitos entre homens e mulheres, assim como das nações, grande e pequenas; em promover o progresso social e instaurar melhores condições de vida numa maior liberdade". A criação das Nações Unidas simboliza a necessidade de um mundo de tolerância, de paz, de solidariedade entre as nações, que faça avançar o progresso social e económico de todos os povos.

Os principais objetivos das Nações Unidas, passam por manter a paz, a segurança internacional, desenvolver relações amigáveis entre as nações, realizar a cooperação internacional resolvendo problemas internacionais do cariz económico, social, intelectual e humanitário, desenvolver e encorajar o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais sem qualquer tipo de distinção.

Assim, a 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Mas o que é que a Declaração Universal dos Direitos Humanos tem a ver com a Maçonaria?

Não será por acaso que o tríptico em que assentam os valores filosóficos e de Acão da Maçonaria Universal – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – se plasmam na mais feliz cumplicidade ética logo no primeiro artigo dos trinta que constituem a Declaração Universal dos Direitos do Homem aprovada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, a saber: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”.
De facto, dificilmente se poderia encontrar algo de mais enfático, que de melhor forma sublinhasse e enfatizasse os princípios e os valores perseguidos pela Nossa Augusta Ordem. Senão vejamos, “Todos os seres humanos nascem livres e iguais.” Aqui estão os princípios mais sublimes da Liberdade e da Igualdade. Só que tais princípios não se esgotam no ato do nascimento. Ao contrário, passam a constituir património inalienável de cada ser humano, até ao dia da sua passagem ao Oriente Eterno. E depois: “Devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Por isso nos chamamos Irmãos. Por isso juntamos as nossas mãos na Cadeia de União, para que a Fraternidade se vá fortalecendo através da Unidade. 
Ainda assim, se fracionarmos o conceito de Liberdade, Igualdade, Fraternidade e o analisarmos face às três gerações de direitos segundo Karel Vasak, jurista checo-francês que foi diretor da divisão de Direito Humano e Paz da Unesco, verificamos que os direitos humanos de primeira geração seriam os de liberdade, compreendendo os direitos civis e políticos, bem como as liberdades clássicas, os de segunda geração seriam os da igualdade, ou seja, os económicos, sociais e culturais e os de terceira geração seriam os da fraternidade, como os do direito a um meio ambiente equilibrado, a uma qualidade de vida saudável, à prosperidade, à paz e à autodeterminação dos povos.
Ora, se analisadas caso a caso, só a Sabedoria proporciona a Liberdade, só a Força da razão patrocina a razão da Igualdade, só a Beleza torna a Fraternidade no mais belo sentimento que une os homens livres e de bons costumes.
Ou seja, este fracionamento dos direitos contemplados na Declaração Universal constitui um paralelismo às colunas que decoram a Ordem Maçónica Universal.
Em suma, podemos afirmar que a Declaração Universal dos Direitos do Homem, tem uma forte inspiração maçónica. Se por um lado, os seus 30 artigos baseiam-se no mais puro e consagrado Direito Natural, ora, a Lei Natural é também a Lei do Dever e a ela estão obrigados todos os Maçons que desejam aperfeiçoar o seu senso de fraternidade e de tolerância, por outro lado, é fácil verificarmos nos Landmarks alguns dos temas abordados na referida Declaração.
Assim, o terceiro Landmark consagra que, “a Maçonaria é uma ordem, à qual não podem pertencer senão homens livres e de bons costumes, que se comprometem a pôr em prática um ideal de paz”. No quarto Landmark, afirma-se que, “a Maçonaria visa a elevação moral da Humanidade inteira, através do aperfeiçoamento moral dos seus membros e, apenas citando parte do sexto Landmark, destaca-se que “a Maçonaria impõe a todos os seus membros o respeito das opiniões e crenças de cada um (…) ela é ainda um centro permanente de união fraterna, onde reinam a tolerante e frutuosa harmonia entre os homens”.

É pois, esta liberdade de pensamento que juntamente com a liberdade física do ser humano e os princípios da Igualdade e da Fraternidade, se comparam, no exercício da cidadania, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e os princípios da Maçonaria Universal.

ELBF24

Não Sei!

Almada Negreiros

Não Sei!

Duas palavras simples com três letras que definem o princípio do conhecimento. Muito difíceis de pronunciar, por vezes até de soletrar pois encerram e escondem a natureza da nossa essência de neófitos num universo infinito e nossa condição de partículas numa construção tão imponente que nos ultrapassa. Eppur si muove, disse Galileu Galilei quando, durante a tortura da inquisição e tendo sido obrigado a afirmar que o Sol girava á volta da terra, não deixou de murmurar a verdade no estertor do suplício.
O Inspector dos Edifícios, recebendo a honra suprema de aplicar o conhecimento adquirido,  deve preservar com lealdade e zelo, tudo o que Mestre Hiram lhe transmitiu no segredo da loja. Deve também assegurar-se que os mestres que o coadjuvam, obtiveram seu salário por mérito, sendo dignos de ascender a esses níveis de conhecimento. A lealdade destes para com o Inspector e para com a regra tem de ser inquestionável e tão pura quanto os preceitos que os instruem. O conhecimento recebido, para ser preservado, deve também ser transmitido para que perdure e seja eterno. Respeitado o segredo com zelo e assegurada a lealdade, deve a justiça da partilha dos segredos ser assegurada.
Ora, nem todos são capazes de cumprir as mesmas tarefas. Para as distribuir há que ter sabedoria. A fim de que todos os irmãos estejam felizes, imbuídos do sentimento de justiça, mais do que tratá-los de igual forma, há que atribuir a cada um a tarefa correcta. Desse nível de equidade, depende a beleza do Templo. Todos devemos ser iguais no acesso á justiça, todos devemos ser tratados de igual maneira perante a lei.
A motivação, a limitação, a premência, levam a que a justiça possa ficar incompleta se não tiver em conta estas premissas as quais, de tanto ignoradas como consideradas sem sabedoria, podem tornar injusta uma decisão, mesmo que originada pelos melhores princípios. A igualdade pode ser antagónica da equidade e por vezes ser tremendamente injusta. O conceito de igualdade, se mal entendido, pode ser uma bengala do madraço o qual, não querendo aprofundar conhecimentos, refugia se na lei do menor esforço. Exige muito estudo e esforço a aventura do conhecimento. Desde logo a confissão da ignorância, depois a dúvida e ainda por cima, reconhecer eventualmente o erro de convicções, adquiridas e quiçá sagradas! Exige a atitude de despojo com que fomos iniciados, lembrar a sua simbologia e preservar aquilo a que nos desafiaram na câmara de reflexão.

ELBF08

Sabedoria, força, beleza ... segredo, zelo, lealdade.

Lima de Freitas

Sabedoria, força, beleza ... segredo, zelo, lealdade.

O juramento que o neófito presta, não raro é objecto das explicações mais espúrias, estapafúrdias e muitas vezes maldosas, não só no mundo profano.
Alguns de nós crêem que terão acesso a segredos classificados, a conhecimento adquirido, sem esforço algum e só porque aderem á nossa ordem. Para muitos VITRIOL é uma figura de estilo que fica bem quando usada nas pranchas, servindo a sua citação para também abrir as portas de algum aumento de salário. O segredo que juramos respeitar é pessoal. Cada um necessita de recolhimento para conseguir chegar ao mais recôndito de si mesmo e aí enfrentar seu maior inimigo.
A sua determinação e capacidade, tendo sido facultada e incentivada por seus irmãos de loja junto com o seu ritual, é preciosa.
Deve defender com zelo os segredos e técnicas que lhe foram transmitidos. Trata se de valores maturados ao longo de séculos os quais foram sendo semeados, aperfeiçoados, analisados e objecto de reflexão à custa de enormes sacrifícios que por vezes custaram a vida a nossos antecessores. Um dever de gratidão, devoção e respeito exige que esses segredos que nos foram os revelados e os encontrados, sejam defendidos com zelo, tão extremo que pode implicar a morte. Valores tão sérios e tão profundos implicam a mais bela e a mais natural qualidade de um membro pertencente a tão Augusta Ordem, a lealdade. Aos valores, aos princípios, e a todos os que os professam.
Não confundir com pessoas. Essas estão de passagem, exercendo a função para que foram eleitos ou nomeados. Todos estamos ao serviço da Arte Real, buscando a palavra perdida. Aceder ao segredo da simbologia dos utensílios que iluminam sua busca, exercer com zelo essa demanda preservando com respeito e devoção o segredo desse caminho, sendo leal ao juramento prestado, faz de nós, creio eu, verdadeiros filhos da luz, abrindo nossa mente para qualquer grau de perfeição e qualquer função.

Brogueira,terra natal do general Humberto Delgado

ELBF08

sábado, 12 de maio de 2018

ALOCUÇÃO DO M. R. SOBERANO GRANDE COMENDADOR A.F.G. NA ABERTURA DO ANO NA ELBF



ALOCUÇÃO DO M. R. SOBERANO GRANDE COMENDADOR A.F.G. NA ABERTURA DO ANO NA ELBF

Começo por me congratular pelo caminho que livremente escolhestes e felicitar esta Loja de Perfeição pelo enriquecimento das suas regiões que a vossa admissão aporta.

Ao serem iniciados numa loja de Perfeição, teve lugar o primeiro momento da vossa progressão nos Alto Graus do R..E..A..A.., sendo pertinente que vos dirija algumas reflexões relativas não só ao grau adquirido como ao Sistema do qual os meus IIr.., a partir de hoje, fazem parte.

As lojas de perfeição abrangem do 4º ao 14º graus, que são designados por “Graus Inefáveis”, pois lidam com a natureza inexpressa de divindade.

O 4º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceite é o da ILUMINAÇÃO, sendo nele abordados os temas do Silêncio, da Fidelidade, da Obediência e do Comando.

Iniciais aqui a vossa ascensão para áreas mais elevadas na procura do conhecimento espiritual, pois é aí que reside a Verdade.

Aqui não encontrareis satisfação para vaidades, ambições e grandezas profanas.

Ficai, pois, connosco apenas se tencionais esforçar-vos para despir o vosso espírito das paixões e se acreditardes que a felicidade consiste na exaltação da Virtude e no Estudo.

Como membros do R.E.A.A., agirão com fidelidade ao dever e aos juramentos feitos e terão como guia os nossos princípios superiores.

Repudiarão a mentira e o mal e lutarão pela verdade agindo com Amor pois, sem ele, nenhuma ação ou iniciativa terá verdadeiramente valor.

 Defenderão a plena liberdade de expressão do pensamento, como direito fundamental do ser humano, observada a correlata responsabilidade, pelo que entendereis sempre na vossa comunicação ao facto de nenhum ser humano poder considerar-se isento de responsabilidades pelas palavras que possa dizer em momentos de imprudência verbal.

A todos, sem distinção de sexo, idade, ideal, raça ou credo, respeitarão e ouvirão atentamente, tendo sempre presentes as palavras de Paulo de Tarso, há dois mil anos, dirigindo-se aos Gálatas na esperança redentora da sua Igreja.

 “Não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”

Falemos agora um pouco sobre o nosso caminho

Na iniciação, a luz que é dada após a terceira viagem do candidato, simboliza a iluminação do ser. Quando seus olhos são descobertos, a primeira coisa que vê é uma série de espadas, cujas extremidades estão voltadas para ele;
É-lhe dito então que tal não é uma ameaça, mas um gesto pacífico, pois a espada empunhada com a mão esquerda dirige para ele o coração de todos os que o rodeiam.
O que lhe não é revelado é que, nessa parte da cerimónia, a luz quase imediatamente irradiada, destina-se a iluminar a sua capacidade de compreender tornando-o capaz de ser instruído.

Deve-se atentar na relação da Maçonaria com a Luz, quer pelo que torna visível quer pelo que torna inteligível.
É o conhecimento permanente e transfigurador que os maçons devem procurar.
Pode-se dizer que essa luz se refere tanto a um racional com que a natureza nos dotou como a uma clarividência que dá acesso a uma ordem superior.

Tem assim a mesma ambivalência daquela que iluminou o século XVIII.

O intenso desenvolvimento da Maçonaria nesse século aproveitou o borbulhar de ideias do Iluminismo, que dele fizeram o século dos filósofos, não no sentido habitual do termo, mas sim pela vontade de elucidar sistematicamente a realidade humana sob os mais diversos sentidos da sua afirmação.

É evidente que os escritos de Montesquieu, Rousseau, Voltaire, Buffon e outros, muito contribuíram para o desenvolvimento de uma consciência coletiva, principalmente no que diz respeito à concepção do homem e da justiça.

A partir de 1740/1750, a ideologia do Iluminismo foi adoptada por diversos Reis, firmes defensores da nova ordem, que se esforçaram por a conformar às leis e instituições de seus respetivos países.

Frederico II foi um deles.

Isto permitiu a Emmanuel Kant afirmar num pequeno texto, datado de 1784, que se vivia o tempo do Iluminismo ou o século de Frederico.

Kant foi provavelmente inspirado na tese do Iluminismo do seu tempo, desenvolvida pelos filósofos alemães Lessing (1729-1781) e Mendelssohn (1729-1786) a qual, de forma breve, afirma que o homem é dotado de uma capacidade racional que lhe permite descobrir verdades. Mas se esse racional não for cultivado, não terá a habilidade para acessar às verdades espirituais, pois o poder de compreender é desconhecido à nascença, revelando-se mais tarde, quando desenvolvido.

Kant diz ao tentar explicar o Iluminismo:
“Iluminismo é a capacidade do homem sair do estado de tutela do qual ele próprio é responsável.
… A tutela é a impossibilidade do uso do entendimento próprio sem a orientação de outro.
… Preguiça e covardia limitam um número muito grande de homens, pois que a natureza há muito os libertou da dependência de pensamento alheio. No entanto, permanecem para sempre, de bom grado, em um estado de tutela, e tornando fácil que outros se afirmem como seus tutores”.

Sapere Aude! Ousar saber, tal é o lema do Iluminismo.
À luz das verdades e da compreensão, dar à mente a sua liberdade, porque a mente não deve ser submetida a nenhuma força externa, mas apenas obedecer a si mesma.

Tal impõe que diga hoje, dirigindo-me a vós, Mestres Secretos,

“ Não confiem em ninguém cegamente, mas ouvi a todos com atenção e respeito; sede determinados a compreendê-los; que o parecer alheio seja bem-vindo, mas aceitai-o apenas se vos parecer correto após o examinares.

O Mestre Secreto está, definitivamente, em outro lugar, em outro nível. Ele deve procurar a verdade a partir do que foi ensinado no primeiro grau: Buscai e encontrareis a verdade, interrogai e a luz vos será dada”.

Estai conscientes que ides fazer um percurso em vários mundos de luz no grau 4.

Na verdade, o Mestre Secreto está ciente de que dentro dele e em volta dele algo ocorreu no que concerne à mente.

Ele é o objeto do fenómeno de um duplo dinamismo.

Ao lado da luz do homem que irradia para o mundo, existe uma luz, aparentemente exterior ao Ser, e que está focada no centro do Homem.

O espírito está presente em toda a parte. Ele pode ser acessado, através de níveis de conhecimento.

Essa é a via da Maçonaria Escocesa.

O ritual abre-nos caminho para o benefício da nossa visão interior, pois temos de reconhecer que a noção de luz, pequena ou grande, não é facilmente compreensível.

Para os homens, como Marsilio Ficino (1433-1499), ela é omnipresente e estrutura grande parte do nosso pensamento especulativo e simbólico.

“ Deus é a fonte e a luz soberana, onde residem os modelos de realidade.

… Assim, dizer que Deus é Luz é o mesmo que dizer, por um lado, que a inteligibilidade da realidade não pode prescindir de Deus e, por outro lado, que essa inteligibilidade é apenas devida à sua natureza divina”.

Nosso rito é um guia, cujo conhecimento foi esculpido pelo tempo.

A luz nele emitida é parte de um todo inatingível.
É uma revelação feita ao Ser, nele e sobre ele, escapando à esfera das palavras.
 Ela deve ser entendida no sentido de um transmissor receptor, com um objectivo:
 equilíbrio

Á medida que avançamos em direcção à grande luz, teremos a oportunidade de irradiar, mais e mais, para benefício dos outros, iluminando o seu caminho.

O Ser iluminado é reconhecido por seus pares e, no mundo profano, deve constituir-se como exemplo de rectidão, de exigência e de singularidade.

Finalmente, meus IIr.., a luz vai presidir ao caminho da vossa jornada maçónica, onde devem estar sempre presentes a modéstia, a paciência e a perseverança para que lentamente se vá transformando um ser material em um ser espiritual, pois virá o tempo de transmutação, da nossa transmutação.

Como Maçons do R.E.A.A., tidos como capazes de receber ensinamentos e seguir o curso da iniciação, baseada na tolerância e unidos no caminho para a realização espiritual, cabe-vos com modéstia, mas com força e determinação, concretizar os objectivos definidos pelas Grandes Constituições, sendo que a legitimidade de tal objectivo reside na realização pessoal de cada um de nós como uma parte do plano divino da Criação.

É tudo meus IIr.. Sede bem-vindos aos corpos deste Supremo Conselho. Escolheste o mais árduo e simultaneamente o mais enriquecedor dos caminhos dos Altos Graus.

Que o Grande Arquiteto do Universo nele vos ilumine e proteja.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

VIRTUDE E VERDADE



Plauto

“Quando presto algum serviço a um amigo ou lhe zelo os
interesses, não há motivo para que me louvem: pois creio que
apenas pratiquei um ato indigno de censura”.(Plauto)


No nosso dia-a-dia quando alguém solicita ajuda, o meu primeiro impulso é, e será sempre, procurar a melhor forma para dar o meu contributo a essa solicitação, pode estar, ou não, ao meu alcance satisfazer o pedido mas certamente irei efetuar o maior esforço para o conseguir.
A realização pessoal, a satisfação e a alegria interior que obtenho quando foi possível contribuir para ajudar alguém é o maior tributo que posso receber, não são necessários elogios ou promessas de retribuição, pois a bondade da ação deve estar ser sempre no Nosso coração .
O apoio que devemos estar sempre prontos a dar não entra na coluna do crédito do balancete comum dos nossos dias profanos, ele deve figurar no auto da nossa estima, no qual nunca constaram atos que atestam falta de ajuda ou de solidariedade para com o próximo, esses sim dignos de censura.
No final do dia quando passamos em retrospetiva o dia que termina, deveremos analisar, como respondemos hoje ás solicitações de ajuda que tivemos?
Será que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance?
Será que com pouco mais de esforço, num ou noutro caso, teria contribuído, para um melhor resultado?
Estamos satisfeitos connosco, ou acreditamos que ainda temos um caminho a percorrer para que essa alegria interior seja cada vez maior?
Certamente que estas questões levam-me a conhecer a mim mesmo, corrigir os meus defeitos e os meus erros e desenvolver a virtude e a verdade!

ELBF02

terça-feira, 24 de abril de 2018

zelo


Thomaz de Mello


zelo

antes do 25 de abril de 1974 creio que o nome dos que são hoje os fiscais municipais, chamavam-se zeladores. Meu pai ascendeu a esse posto em 1973. Tratava-se de assegurar que as leis, normas,
impostos, definidos pela administração pública do governo e das autarquias, fossem cumpridas. O objecto da função manteve-se. Desde a dimensão dos reclamos luminosos que devia corresponder ao pedido e concedido, à dimensão das barracas numa feira, dimensão de pavilhões para a indústria, das casa etc. Coisas enfim que podem afetar, se não cumpridas, o dia-a-dia do cidadão comum - o seu espaço; a sua comodidade; a harmonia da convivência etc. Entretanto existe uma expressão corrente e por vezes demasiado recorrente do excesso de zelo. Se a lei é para cumprir, creio que também existe o espírito da lei e o senso comum. O crime de colarinho branco, é, ou devia ser punido de uma maneira mais severa do que o crime por necessidade, ou demência, ou precariedade, por exemplo. Aí, tanto quanto eu sei - ou não sei - intervêm o espírito da lei, a motivação, as condicionantes, o entorno familiar, sociológico, a idade, entre outros. No entanto, e sem sombra de dúvida, é fundamental que os agentes da autoridade zelem para que as leis sejam cumpridas pois trata-se de assegurar o bom funcionamento da comunidade. Se bem entendi, não basta garantir o acesso de todos à justiça mas, antes de mais, garantir que todos sejam julgados da mesma maneira e com os mesmos direitos e deveres. Zelar para que a democracia, além de respeitar a vontade da maioria, seja capaz de se embelezar respeitando as minorias, evitando que haja uma ditadura da maioria. Chegado aqui, creio que se impõe uma chamada de atenção: se as leis necessitam de ser aplicadas com bom-senso; se há circunstâncias atenuantes para os delitos; se mesmo a constituição não se esgota no seu texto, necessitando da sua boa aplicação no quotidiano...então entramos no poder discricionário dos seus zeladores-fiscais, procuradores, juízes, etc. O poder instituído deve zelar para que os que verificam a aplicação e cumprimento das leis tenham uma formação o mais abrangente e completa possível tanto a nível técnico como humanístico; ético, literário; pleno de integridade, honestidade, piedade, até. Os valores de sempre que nos transmitiram os avós junto com o chá e o leite mais uns docinhos. Esses valores, se zelarmos por eles, protegem-nos dos gulosos, dos chico-espertos, dos gestores modernaços, dos carreiristas, dos vaidosos e doutros delinquentes.
  Quando falo de nível literário, dou um exemplo recente. Perante o facto dos deputados das ilhas receberem dois subsídios para a mesma viagem, o presidente a assembleia disse que tal não era eticamente reprovável. Numa comunidade decente, e para fazer pedagogia senão jurisprudência, creio que seria mais correcto, zelando pela boa harmonia social, ser dito que sendo legal é éticamente reprovável. A omissão do zelar pelos valores que deviam ser republicanos, levou a esse lapsus linguae. Devemos zelar para que os valores sagrados não sejam submergidos por interesses pessoais, partidários, clubísticos, tribais ou outros que se sobreponham aos altos interesses da comunidade-nação. O zelo é algo incómodo. Obriga a um desapego, imparcialidade e é irmão da rectidão, da hombridade, da honestidade e da integridade. Nas sociedades onde é mais praticado, torna-se na expressão máxima da liberdade, da fraternidade e da igualdade.


ELBF04

domingo, 22 de abril de 2018

SECRETÁRIO ÍNTIMO



Templo de Salomão?

SECRETÁRIO ÍNTIMO
Albert Pike, in Moral e Dogma

Neste grau serás especialmente instruído para seres escrupuloso e leal, desinteressado e benevolente, e para actuares como pacificador em caso de dissensões, disputas e querelas entre os irmãos.
O Dever é um magnetismo moral que controla e guia o rumo do verdadeiro maçom sobre as tumultuosas águas da vida. Enquanto que as estrelas, que representam a honra, a reputação e as recompensas, brilham ou não brilham tanto à luz do dia como na obscuridade da noite da adversidade e das tribulações, tanto na calma como na tormenta, a bússola infalível mostra sempre o verdadeiro rumo a seguir e indica com total certeza a meta onde se acha o porto ao qual, se não se chegasse, significaria naufrágio ou desonra. O maçom prossegue o seu silencioso rumo da mesma maneira que o marinheiro, quando após dias em que já não se divisa terra e o oceano, sem trilhos nem marcos, se espalha ao seu redor, segue a orientação da agulha magnética, que jamais duvida de onde está o Norte. Cumprir as próprias obrigações, quer haja ou não haja recompensa, é a sua única intenção. Sendo indiferente que esse facto não conte com qualquer testemunho ou que permaneça desconhecido para toda a humanidade.
Uma breve reflexão ensinar-nos-á que a Fama tem limites diferentes dos das montanhas e dos oceanos e que aquele que busca a felicidade na frequente repetição do seu nome pode passar a vida a propagá-lo, sem correr os riscos ou os anseios da procura de novos mundos ou a necessidade de atravessar o Atlântico. Aquele que considera que o mundo deve ser cheio com os seus ecos e vaidades, afastará do número dos seus admiradores todos aqueles que jazem por debaixo do voo da fama, e a quem não escutaram no vale da vida mais apelos do que os da necessidade, bem como todos aqueles que se consideram a si próprios demasiado importantes para o contemplar e que consideram a menção do seu nome como usurpação do seu tempo; a todos aqueles que estão demasiado satisfeitos com eles próprios para prestar atenção às coisas alheias; a todos os atraídos pelo prazer, ou aos que, por estarem dependentes de diferentes empresas, não lhes será dado contemplar o seu triunfo; e a todos os que dormem sumidos na negligência universal. O que busca a fama encontrará o seu nome entorpecido por limites mais fechados do que as montanhas rochosas do Cáucaso, e perceberá que um homem não pode ser tido por venerável ou formidável mais que do que para uma pequena parte dos seus semelhantes. E portanto, já que não podemos esmorecer em nossos intentos de alcançar a excelência, é necessário que, tal como Africano aconselhava a seus descendentes, devemos elevar os nossos olhos para os altos propósitos, e contemplar o nosso futuro sem ceder à vaidade das multidões. Não nascemos unicamente para nós. A mossa Nação reclama a sua parte de nós, e os nossos amigos outra parte. E posto que tudo o que a Terra produz é criado para uso do homem, assim os homens são criados para o bem-estar da humanidade e para que se faça o bem entre as pessoas. Nisto devíamos seguir os ditames da Natureza, e entregarmo-nos às regras da cidadania que impõem a reciprocidade de direitos e deveres, umas vezes recebendo e outras vezes contribuindo, cimentando a sociedade humana através da arte, da indústria e dos nossos recursos.
Perante os louvores aos outros, aceitai a glória deles e o seu bem com alegria, e em caso algum os menosprezeis ou rebaixeis seus méritos e jamais os apouqueis. E não penseis que a exaltação de vosso irmão é feita com menosprezo de vossa valia. Não realceis a debilidade de ninguém para consterná-lo, nem a façais pública para desacreditá-lo, nem te recries em recordá-lo para apequená-lo ou para te colocares a ti próprio acima dele; nem nunca te vanglories a ti mesmo ou menosprezes a outrem, a não ser que razões suficientemente ponderosas o justifiquem. Lembrai-vos que muita vezes esquecemos os altos merecimentos dos outros e recordamos as pequenas falhas que lhes encontramos. Deveríamos ser mais severos connosco, ou mais indulgentes com os outros, e pensar que por muito bem que alguém possa pensar de nós, nós poderíamos contar-lhe muitas acções que praticamos, indignas, insensatas e talvez piores, acções que a terem sido cometidas por outro nos bastariam para destroçar a sua reputação.
Se consideramos que o povo é sábio e sagaz, justo e perspicaz, quando nos envaidece e nos converte em ídolos, não o chamemos de iletrado e ignorante, nem juiz débil e idiota, quando é nosso vizinho o incensado pela fama pública e o aplauso popular. Cada homem carrega suficientes pecados em sua vida, suficiente desassossego em sua alma, suficiente maldade em sua fortuna e mais que suficientes erros em seus trabalhos para se entreter a procurar censuras no seu próximo. De maneira que a curiosidade sobre os assuntos de outros não pode pressupor se não inveja e mente perversa. O homem generoso entregar-se-á de forma solícita e estrita à beleza e ordem de uma família bem governada, e às virtudes de pessoas excelentes.
Deveria ser razão suficiente para excluir a qualquer homem da sociedade de maçons, que este não seja desinteressado e generoso tanto em seus actos, como em suas opiniões sobre os homens, como em sua forma de conduzir-se pela vida. Aquele que é egoísta e avaro, ou mesquinho e interesseiro, não permanecerá muito tempo dentro dos estritos limites da honestidade e da verdade, sendo certo que em breve cometerá alguma injustiça.
O homem generoso não está pendente de dar segundo o que recebe, preferindo que os apontamentos na conta-corrente da boa-vontade sejam a favor dos outros. Aquele que foi pago por completo por todo o bem e favores que outorgou é como um perdulário que consumiu toda a sua fazenda e se lamenta por ter a carteira vazia. Aquele que agradece a minha generosidade com ingratidão aumenta, em vez de diminuir, a minha riqueza; e aquele que é incapaz de devolver um favor é igualmente pobre, provenha a sua debilidade de pobreza de espírito, sordidez de alma ou indigência material.
Se é opulento aquele que tem grandes somas investidas, e o grosso da sua fortuna consiste em obrigações que exigem a outros homens pagar-lhe dinheiro, mais devedor é na realidade perante aqueles aos quais deve um largo rol de amabilidades e favores. Mais do que uma moderada soma cada ano, o homem rico tão só investe o seu capital, e a parte que nunca usa é como favores não retribuídos ou amabilidade não retribuída, e normalmente é uma importante parte da sua fortuna.
A generosidade e o espírito liberal fazem dos homens seres humanos e perenes, de coração aberto, francos e sinceros, responsáveis em sua bonomia, de trato fácil e afável e benevolentes com a humanidade. Protegem o débil contra o forte, e a inocência perante a rapacidade e o artifício. Socorrem e confortam o pobre e são os guardiães, perante Deus, de seus pupilos inocentes e indefesos. Valoram os amigos mais que a riqueza ou a fama, e a gratidão mais que o dinheiro ou o poder. São nobres por patente divina, e seus escudos de armas e suas linhagens encontram-se inscritos no grande livro heráldico dos Céus. Nenhum homem pode ser mais maçom que gentil-homem a não ser que seja generoso, liberal e desinteressado. Ser liberal, mas apenas com aquilo que é nosso; ser generoso, mas tendo sido primeiramente justo; dar, quando dar nos priva de luxo ou conforto, isto é realmente a Maçonaria.
Aquele que é mundano, ganancioso ou materialista deve mudar antes de se tornar um bom maçom. Se somos governados pelas paixões e não pelo dever, se somos descorteses, severos, críticos ou maledicentes nas relações humanas ao longo da vida; se somos pais descuidados ou filhos irresponsáveis; se somos amigos traiçoeiros ou maus vizinhos ou competidores desagradáveis ou políticos corruptos e sem princípios ou negociantes abusivos nos negócios, estamos a larga distância do que é a verdadeira Luz Maçónica. Os maçons devem ser corteses e afectuosos uns com os outros. Ao frequentar os mesmos templos e ao ajoelhar-se ante os mesmos altares deveriam sentir pelos demais esse respeito e cortesia inspirados na sua relação comum e na sua relação com Deus único. Faz falta muito do espírito da antiga fraternidade entre nós; mais condescendência perante os erros dos demais, mais perdão. Mais interesse pelo bem-estar e pela sorte do outro, e algum sentimento fraternal, de maneira que não seja vergonhoso empregar a palavra “irmão”.
Nada deveria interferir com essa amabilidade e afecto; nem o espírito dos negócios, absorvente, ansioso, açambarcador e duro do regateio, mercantil e amargo em suas competições, baixo e sórdido em seus propósitos; nem tão pouco o espírito da ambição, egoísta, mercenário, incansável, desonesto, que vive unicamente da opinião dos outros, invejoso da sorte alheia, ambicioso de seu próprio êxito, injusto, sem escrúpulos e farsante. Aquele que me faz um favor obriga-me a um eterno retorno de gratidão. A obrigação não nasce de um pacto nem por uma manifestação de intenções, mas pela natureza própria do facto. E é um dever que nasce no espírito da pessoa obrigada por um favor, para a qual sempre será mais natural amar o amigo e devolver bem por bem que não mal por mal; pois um homem pode esquecer uma ofensa, mas nunca deve esquecer um favor. Aquele que recusa fazer o bem àqueles aos quais está obrigado por amor, ou que recusa amar a quem lhe fez bem, é antinatural e de sentimentos monstruosos, e crê que o mundo inteiro foi criado para seu serviço; padece de uma avidez pior que a do mar, pois ao menos o mar, ainda que receba todos os rios, provoca as nuvens e os mananciais de toda a água que necessitam. Nosso dever para com todos aqueles que são nossos benfeitores é estimar e amar a essas pessoas, devolver-lhes o serviço ou benefício proporcionalmente, segundo as nossas possibilidades, ou segundo a sua necessidade, ou segundo o que a ocasião permita, e conforme a natureza das suas amabilidades.
O homem generoso não pode deixar de lamentar as dissensões e disputas entre os seus irmãos. Só o perverso e egoísta se deleita com a discórdia. Não há ocupação mais pobre para a humanidade do que passar a vida a dizer mal do próximo, como se faz a partir da imprensa, do púlpito e da tribuna. O dever do maçom é esforçar-se para conseguir que o homem pense melhor do seu vizinho; aplacar, em vez de agravar, as dificuldades; reconciliar aqueles que estão separados ou inimizados, impedir que os amigos se inimizem e persuadir os adversários para que se tornem amigos. Para fazer isto, ele necessita de controlar as suas próprias paixões, não ser irascível nem precipitado, nem rápido a ofender-se nem fácil de zangar. Pois a ira é inimiga declarada do consenso. É uma tormenta directa, na qual não se pode ouvir a nenhum homem falar nem se pode oferecer ensinança, pois se não aconselhas moderadamente serás ignorado. A ira torna o casamento num conflito constante e inevitável e faz da amizade, da sociedade e do trato familiar algo intolerável. Multiplica os males da embriaguez e precipita a suave virtude do vinho em loucura. Converte uma piada inocente em começo de tragédia. Torna a amizade em ódio, e faz com que um homem se perca, juntamente com a sua razão e juízo, em bizarrias. Converte os desejos de conhecimento em irritação e querelas. Acrescenta insolência ao poder, converte a justiça em crueldade e o livre arbítrio em opressão. Converte a disciplina em tédio e ódio às instituições liberais. Provoca inveja do homem próspero e afasta o sentimento de piedade para o desafortunado.
Portanto, trata de primeiramente controlar o teu próprio temperamento e de governar as tuas próprias paixões, pois só assim serás capaz de manter a paz e a harmonia entre outros homens, especialmente entre os irmãos. Antes de tudo, recorda que a maçonaria é o reino da paz e que “entre maçons não deve haver dissensão, senão unicamente nobre emoção, que favorece o trabalho comum e o melhor acordo”. Onde quer que haja discórdia e ódio entre os irmãos não há Maçonaria, pois a Maçonaria é Paz, Amor Fraternal e Concórdia. A Maçonaria é a grande Sociedade da Paz no mundo. Onde ela existe, luta por impedir as dificuldades e disputas internacionais e por unificar as repúblicas, reinos e impérios numa grande pátria de paz e amizade. Não haveria conflitos tão amiúde se os maçons conhecessem o seu poder e valorassem os seus juramentos em sua justa medida.
Quem pode relatar os horrores e aflições acumuladas numa só guerra? A Maçonaria não se deixa levar pela pompa e circunstância da guerra e  suas vãs glórias. A guerra entra secretamente com as suas mãos sangrentas nas nossas casas, e leva consigo de muitos milhares de lugares aqueles que ali viviam na paz e conforto que lhes proporcionam os doces laços familiares e domésticos. Arrasta-os para o abandono e a morte, para a doença, em locais insalubres; faz com que sejam destroçados, despedaçados e mutilados na feroz contenda; ou que caiam no sangrento campo de batalha para nunca mais se levantarem, ou que sejam levados em agonia para hospitais fedorentos e horrorosos. Os gemidos no campo de batalha encontram o seu eco nos lamentos da dor de milhares de corações desolados. Há um falecido em cada casa, um lugar vazio a cada mesa. Ao voltar a casa, o soldado traz à sua terra pesar ainda maior, seja pela doença que contraiu ou pelos vícios adquiridos na vida de soldado. A nação está desmoralizada, a alma do país degrada-se afastando-se do nobre intercâmbio das tarefas e ofícios com o resto do povo; generalizam-se a ira e a vingança, o orgulho malvado, e o hábito de medir força bruta contra força bruta nas lutas. Consomem-se erários que teriam chegado para construir milhares e milhares de igrejas, hospitais e universidades ou para articular e unir todo um continente por meio de carris de ferro. A perda desse tesouro na guerra é pior do que se caísse ao fundo mar! Já que se consome em cortar as veias e artérias da vida humana alagando a num mar de sangue.

Estas são as lições deste grau. Fizeste voto de as converter em lei, preceito e guia da tua vida e da tua conduta. Se assim o fizeres estarás legitimado, pois serás merecedor de continuar avançando na Maçonaria. 
(tradução livre de Agostinho Costa)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Certamente os de bons costumes


Rua do Amparo/Praça da Figueira - Lisboa

Certamente os de bons costumes

Desinstala-te e vem daí comigo…
Vamos reparar á nossa volta,
Lançar o olhar lá para trás,
Para descobrir o que permaneceu
Dos obreiros que já partiram,
A herança ainda relembrada
Que o esquecimento não apagou,
Por verdadeira e muito atual.

Olha bem, observa com atenção:
Por mais folhedo e mais frutos,
Flores ou cores que ostente,
Por mais que a queiras adornar,
Uma árvore é apenas uma árvore
Que somente se tornará eterna
Se possuir umas fortes raízes…
Sua sombra será companheira,
Abrigo de diferentes gerações.

Construtores de obras imponentes
Que traíram seus contemporâneos,
De quantos a Humanidade lembra?
E tu, quais os que tens presentes?
Certamente os de Bons Costumes
Que em ti depositaram a semente
Do que é antiquado e conservador,
Porém o cimento da Civilização:
Paz; Amor; Harmonia; Fraternidade!

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O silêncio é meditação


José Gonzaléz Collado

O silêncio é meditação,

ao libertar-se da realidade corporizada por ruído, movimento, media, relações humanas, fenómenos externos, a mente inicia uma viagem sem destino. Por vezes a mente eleva-se no êxtase da contemplação de um quadro, na leitura de um livro, na audição de uma obra musical, ao admirar um edifício. Mas também na expressão de um olhar que nos ama, na pureza da expressão de um recém-nascido.

  O silêncio é trágico quando, sem palavras, acompanhamos um ente querido na agonia do seu ocaso na antecâmara da morte. O silêncio torna-se a forma mais excelsa de dignidade quando se está numa cama de enfermaria e se cala o sofrimento físico pois se sabe que a morte nos espera. O enfermo cala o seu desespero a um filho, por exemplo, animando-o a seguir o seu caminho e fazendo crer que a vida será o mesmo sem ele.

O silêncio pode ser aviltante e salvador. Perante a opressão e o risco de perder a vida, quantos não calam a sua consciência e a sua dor para poderem sobreviver?!

  Sendo aviltante pode ser digno – um indivíduo que ganha 500 euros por mês, mulher desempregada, contrato a prazo, cala sua indignação para poder sustentar a família.

  O silêncio é opróbrio e indigno – quantos se calam perante injustiças, infâmias, indignidades, apesar de não correrem qualquer risco. Quantos calam os valores que lhes foram transmitidos pelos pais, avós, professores, instrutores, mestre de loja, por preguiça, desinteresse, egoísmo, avidez, vaidade no dia-a-dia esquecendo o zelo indispensável no compromisso que assumiram!?

  O silêncio, sendo fundamental para iniciar a viagem interior, pode ser aterrador à medida que vamos descendo ao inferno dos nossos desmandos, escavando nossas convicções, esmiuçando pensamentos e enfrentando nossos defeitos ficamos mais distantes da aparência de realidade que compõe nossa existência. Os demónios que obscurecem nossa mente constituem um ruído ensurdecedor ao sobreporem-se à nossa convicção do que é a realidade. No silêncio da nossa caverna mostramos a nossa coragem ao enfrentar nosso maior inimigo. Essa batalha será eterna e o silêncio será a nossa arma mais eficaz. O silêncio libertará nossa alma para a demanda da palavra perdida e tornar-nos-á companheiros da consciência universal.
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o silêncio tem cor


O Silêncio (1842–1843), escultura de Antoine-Augustin Préault

o silêncio tem cor,

sob a forma de uma folha, uma tela, uma prancha, uma pauta, o branco é a expressão do silêncio do criador ante a criação. Símbolo de angústia, desespero, entusiasmo, abnegação, fraternidade e outros valores que povoam o espírito do arquitecto de sons, de cores, de símbolos, de números, de geometrias. Ante toda a criação e o espírito que a anima, o silêncio é o ponto de partida e a voz do subconsciente.

  O silêncio, estado prévio e inalterável até ao grau de mestre na nossa Ordem, não é a minha preocupação, nem o meu objecto. Outros já o fizeram com acuidade e maestria. Algo no entanto me faz abordar a interpretação por alguns desse silêncio.

  Por vezes a prática do silêncio torna-se castrador e demasiado opressor.

  Não deveria provocar medo de nos ágapes, os neófitos serem participativos, especulativos mesmo e poderem aprender e partilhar algo mais que vivenciaram em loja. O receio e por vezes medo de dizer algo inconveniente, leva a que se diga tudo o mais certinho e direitinho, by the book, não permitindo uma maior prática espiritual e maior luz sobre os mais diversos temas. Perante a folha em branco não haverá criação se o compositor, arquitecto, pintor, escritor, poeta só debitar o que já se conhece mesmo que sob outra versão. O desenvolvimento científico é indissociável da experimentação, a qual pressupõe alguns desastres até que se chega a um resultado concreto, coerente e inovador. Sendo seres imperfeitos e tendo a humildade de o reconhecer, temos de admitir o erro, conviver com ele, aperfeiçoando o nosso ângulo de visão, a nossa abordagem e o nosso processo de crescimento interior, o qual, será sempre objecto de confronto de ideias que devemos receber com gratidão, atentamente e despidos de certezas que se forem só nossas, estarão ainda mais longe da verdade.

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