sábado, 22 de dezembro de 2018

PREBOSTE E JUÍZ


Rafael

PREBOSTE E JUÍZ

Albert Pike, in Moral e Dogma

A lição que este grau nos traz é a Justiça, nas decisões e no juízo, assim como nas nossas relações e trato com outros homens.
Numa nação onde o julgamento com jurados é conhecido, todo o homem inteligente pode ser chamado a actuar como jurado, quer o seja unicamente de facto, ou como de facto e de direito,(1) e a assumir a pesada responsabilidade que lhe acarreta esse compromisso. Aqueles que são investidos com este poder devém julgar todas as causas com escrúpulo e imparcialidade, sem nenhum tipo de consideração face ao poder do poderoso, aos subornos do rico ou às necessidades do pobre. Esta é a norma cardinal, que ninguém discutirá, ainda que muitos não a observem. Mas não basta isso. Devem despojar-se de preconceitos e ideias preconcebidas. Devem escutar pacientemente, recordar com precisão e analisar cuidadosamente os factos e argumentos que se apresentam perante eles. Não devem lançar-se precipitadamente a tirar conclusões, nem formar opiniões antes de ter ouvido todas as partes. Não devem pressupor crime ou fraude. Nem devem ser tomados por uma obstinação teimosa, nem devem ser obstinados contra os pontos de vista e raciocínios alheios. Ao perscrutar o móbil de um facto provado não se deve presumir nem a melhor, nem a pior das intenções, se não aquela que ache que o mundo teria como justa e objectiva se fosse qualquer outra pessoa a levá-la a cabo; nem deve, por mera vaidade de se mostrar dotado de agudeza e sagacidade, esforçar-se por dar importância a pequenas circunstâncias que por si nada representariam, mas associadas a factos de relevo lhes poderiam acrescentar alguma aparente agravante. Estas são regras fundamentais que qualquer jurado deve observar.
No trato com o próximo há duas classes de injustiça: a primeira é a daqueles que provocam um prejuízo; a segunda é a dos que têm em sua mão desviar um prejuízo daqueles a quem é dirigido, e todavia não o fazem. Desta forma, a injustiça pode cometer-se de forma activa de duas maneiras, por força e por fraude. Por força, realizada à maneira do leão, e por fraude, realizada à maneira da raposa. Mas resultando ambas totalmente repugnantes perante o dever cívico, sendo, aliás, mais detestável a injustiça por fraude.
Qualquer dano causado por uma pessoa a outra, seja porque afecte a sua pessoa, a sua fazenda ou a sua reputação é um delito contra as leis da Justiça. O âmbito deste Grau é portanto amplo e vasto; e a Maçonaria persegue, da forma mais enérgica possível, a defesa da lei e da Justiça, e da forma mais efectiva possível a prevenção da maldade e da injustiça. Com esta finalidade ensina esta grande e transcendente verdade: que a maldade e a injustiça, uma vez praticadas, não podem ser desfeitas, outrossim são eternos em suas consequências, e uma vez consumados passam a fazer parte do Passado irrevogável; que o mal perpetrado contenha seu próprio castigo tão certa e naturalmente como a bolota nasce do carvalho. Se as consequências são o seu próprio castigo, então não precisa de maior penitência, pois não a pode haver mais pesada; estão implícitas no próprio cometimento da falta, e não podem ser separadas dela. Um mal causado ao próximo é um crime contra a nossa própria Natureza, um delito contra a nossa própria alma que desfigura a imagem da Beleza e do Bem. O castigo não é a execução de uma sentença, mas sim a sucessão de um efeito. Está escrito que o dito castigo sucede ao facto culpável, não por um decreto de Deus como juiz, mas sim por uma lei decretada por Ele como Criador e Legislador do Universo. Não se trata de um artifício acessório, mas sim de uma consequência lógica e ordinária; e portanto deve ser suportada pelo infractor, e através dele pode influenciar outros. É a decisão da infinita justiça de Deus, sob a forma de Lei.
Não pode haver interferência, nem moderação, nem protecção perante os efeitos naturais dos nossos maus actos. Deus não se interporá entre a causa e a sua consequência; e por isso não pode haver perdão para os pecados. Podemos arrepender-nos do acto que contaminou a nossa alma, e pode ele ser expiado, mas o dano está feito. O pecado pode ser redimido por esforços posteriores, e a mancha lavada por amargos esforços e severos sofrimentos; mas os esforços e a constância que poderiam ter elevado a alma ao mais alto nível esgotam-se agora tentando unicamente recuperar aquilo que se perdeu. Deve haver sempre uma clara diferença entre quem unicamente cessa de praticar o mal e aquele que sempre praticou o bem.
Sem dúvida observará de forma muito mais escrupulosa a sua conduta, e olhará mais para os seus próprios actos, aquele que crê que esses actos arrastam inevitavelmente as respectivas consequências naturais e irremediáveis, que não aquele que acredita que a penitência e o perdão poderá romper em qualquer momento a cadeia de consequências. Seguramente cometeremos menos infracções e injustiças se tivermos arraigadas em nossas almas a convicção de que todo o facto está feito de forma tão irrevogável que nem a omnipotência de Deus pode desfazer o acontecido, e não pode tornar em não-feito o que foi feito; que cada acto nosso leva seu próprio fruto, conforme a leis inalteráveis que devem permanecer para sempre irrevogavelmente escritas nas Tábuas da Natureza Universal.
Se fizeste mal a outrem, podes afligir-te, arrepender-te e tomar a resoluta determinação de não voltar a fraquejar no futuro. Também podes, na medida do possível, reparar o facto. Isso está certo. A parte prejudicada pode perdoar-te, tal como o entende a linguagem humana; porém o feito, feito está, e ainda que todos os poderes da Natureza conspirem a teu favor, não podem desfazê-lo. As consequências para a alma, ainda que nenhum homem possa percebê-lo, estão aí, escritas nos anais do Passado, reverberando através do tempo.
 O arrependimento por um mau acto leva consigo, como qualquer outro acto, o seu próprio efeito, o efeito de purificar o coração e emendar o futuro, mas não o efeito de apagar o passado. Perpetrar o mal é um acto irrevogável, mas não incapacita a alma de fazer o bem no futuro. As suas consequências não podem ser apagadas, mas o seu curso não precisa de ser seguido. A maldade e a perversidade perpetradas, ainda que irrevogáveis, não acarretam desespero, mas sim maiores esforços do que anteriormente. O arrependimento é todavia tão válido como sempre, mas é válido para assegurar o futuro, não para esconder o passado. Inclusivamente as vibrações do ar, uma vez postas em movimento pela voz humana, não cessam com os sons que as originaram. A sua intensidade atenua-se rapidamente e se torna inaudível para o ouvido humano. Mas as ondas de ar assim elevadas sobrevoam a superfície da terra e os oceanos, e em menos de 20 horas cada átomo da atmosfera se impregna do movimento devido a essa porção infinitesimal de movimento primitivo que foi conduzido ali através de incontáveis canais, e que deve continuar exercendo a sua influência durante a sua existência futura. O ar é uma vasta biblioteca em cujas páginas se escreve para sempre o que o homem tenha dito ou inclusivamente sussurrado. Aí, em seus caracteres mutáveis mas infalíveis, misturados com os primitivos, assim como com os últimos sinais de mortalidade, permanecem gravados para sempre votos quebrados e promessas incumpridas, perpetuando, nos movimentos de cada partícula, todas em uníssono, o testemunho da inconstante vontade do homem. Deus lê esse livro, embora nós não o possamos fazer. Desta forma, a terra, o ar e o oceano são as eternas testemunhas dos actos que realizamos. Nenhum movimento levado a cabo pela Natureza ou por obra humana será jamais apagado. A pista de cada quilha que tenha sulcado a superfície do oceano permanece para sempre registada nos futuros movimentos de todas as partículas que ocuparam esse lugar. Todo o criminal está irrevogavelmente encadeado no testemunho do seu crime pelas leis do Todo-Poderoso, pois cada átomo do seu corpo mortal, apesar de quantas mudanças experimentem as suas partículas, reterá todavia, aderindo a ele através de todas as combinações, algum movimento derivado do mesmo esforço muscular com que perpetrou o crime. Que aconteceria se as nossas faculdades fossem tão aperfeiçoadas numa vida futura que nos permitissem perceber e rastrear as consequências inapagáveis de nossas palavras incumpridas e feitos perversos, e tornar a nossa culpa e dor tão eternos como essas consequências? Não é possível conceber castigo mais terrífico para uma inteligência superior do que o de contemplar, que a sua acção permanecerá eternamente em acto, uma maldade sempre latente para além da memória dos homens!
A Maçonaria, através dos seus ensinamentos, tenta levar as pessoas a não consumar injustiças, maldades e ultrajes. Ainda que não pretenda usurpar o lugar da religião, o seu código moral procede, desde logo, de princípios muito diferentes dos da lei civil, de forma que reprova e castiga ofensas que nem a lei nem a opinião pública condenam. Na lei maçónica, enganar e exagerar no comércio, no tribunal e na política não se consideram pecados mais veniais que o roubo, nem uma mentira deliberada mais venial que o perjúrio, nem a calúnia inferior ao desfalque, nem a sedução mais venial que o assassinato. A Maçonaria condena especialmente aquelas maldades nas quais o infractor induz outros a tomar parte. Ele pode arrepender-se; pode, após esforços angustiados, retomar o caminho da virtude; a sua alma pode purificar-se através de muita angústia e muita luta interior; mas a criatura débil que ele desencaminhou e a quem fez cúmplice da sua culpa não pode obrigá-lo a ser cúmplice do seu arrependimento e emenda. E ele pode compungir-se, mas não pode mudar o caminho errado do outro a quem ensinou a dar o primeiro passo para a perdição, um caminho de que o mesmo é testemunha inevitável. Como vamos falar então de perdão dos pecados? Unicamente se pode falar de um castigo perpétuo e inevitável, que nenhum arrependimento pode aliviar nem aplacar nenhuma piedade.
Esforçamo-nos por ser justos ao julgar os motivos dos outros homens. Apenas nada conhecemos dos verdadeiros méritos ou deméritos de qualquer semelhante. Raras vezes conhecemos com certeza se este homem é mais culpável que aquele outro, ou inclusivamente se este homem é muito bom ou muito perverso. Com frequência os homens mais depravados deixam atrás de si excelentes reputações. Haverá alguém de entre nós que, ao longo da sua vida, não tenha estado em algum momento a ponto de cometer um crime? Cada um de nós pode olhar para trás e estremecer ao contemplar o momento em que os os seus pés resvalavam junto do precipício em que se despenha o abismo da culpa; e se a tentação tivesse sido algo mais intensa, ou algo mais continuada, ou se a penúria tivesse apertado um pouco mais, ou um pouco mais de vinho tivesse turvado o nosso intelecto, destronado o nosso juízo e despertado as nossas paixões, os nossos pés teriam resvalado, e nós teríamos caído para não nos levantarmos jamais.
Podemos dizer: “Este homem mentiu, roubou, falsificou, desfalcou dinheiros que lhe foram confiados; todavia esse passou a vida com as mãos limpas”. Porém não podemos afirmar que o primeiro não lutou arduamente, ainda que sem êxito, contra tentações sob as que o segundo havia sucumbido sem esforçar-se. Podemos dizer quem tem as mãos mais limpas perante os homens, mas não quem tem a alma mais limpa perante Deus. Podemos afirmar: “Este homem cometeu adultério, mas esse outro todavia sempre foi casto”. Porém não podemos saber se a inocência desse homem pode ter sido devida à frieza do seu coração, à ausência de motivo, à presença de medo ou à pequenez da tentação; nem se a caída do outro pode ter sido precedida por luta interior mais veemente, causada pelo frenesim mais esmagador, e expiada pelo arrependimento mais sincero. A generosidade, assim com a mesquinhez, pode ser um resultado do temperamento natural; e perante os olhos do Céu, uma larga vida de beneficência pode ter custado menos esforço e indicar menos virtude, sacrifício e interesse que uns poucos e raros actos virtuosos e escondidos arrancados por dever da alma reticente e evasiva de outro. Pode haver mais mérito real, mais esforço e sacrifício, mais presença dos mais nobres elementos da grandeza moral numa vida de fracasso, pecado e vergonha do que numa trajectória, a nosso ver, de integridade imaculada.
Quando condenamos ou mostramos compaixão pelo caído, como haveremos de saber se tivéssemos sido tentados como ele, não teríamos caído como ele, até com menos resistência? Como saberíamos o que faríamos se nos encontrássemos sem trabalho nem sustento, morrendo de fome, esfaimados e desfalecidos, enquanto nossos filhos choravam pedindo pão? Nós não caímos porque não somos suficientemente tentados. Aquele que caiu pode ser em seu coração tão honesto como nós. Como podemos estar seguros de que nossa filha, irmã ou esposa poderia resistir ao abandono, à desolação, à loucura ou à tentação que sacrificaram a virtude da filha de outros e a fizeram cair na vergonha? Talvez que não tenham caído porque não foram realmente tentadas! É atitude sábia rezar para não ser expostos às tentações.
A justiça humana é sempre incerta. Quantos assassinatos judiciais se cometeram devido à ignorância do fenómeno da loucura! Quantos homens enforcados por assassinato não eram de coração menos assassinos do que o jurado que os processou e o juiz que os sentenciou! Bem pode duvidar-se se a administração das leis humanas, em cada país, não é senão uma gigantesca onda de injustiça e maldade. Deus não vê como vê o homem; e o criminoso mais abandonado, sombrio como o mundo o considera, pode ter mantido acesa uma pequena luz bruxuleando num cantinho da sua alma, luz que bem poderia ter-se extinto desde há muito tempo naqueles que caminham orgulhosos no enlevo da fama impoluta, se tivessem sido provados e tentados como o pobre foragido. Nem sequer conhecemos a vida exterior do homem. Não somos competentes para nos pronunciar nem sequer sobre seus feitos. Não conhecemos nem a metade de actos virtuosos nem perversos, nem sequer dos nossos semelhantes mais próximos. Não podemos dizer, com certeza, nem sequer de nosso amigo mais íntimo, que não cometeu um pecado concreto, ou incumpriu um mandamento particular! Que cada homem pergunte a seu coração! De quantos de nossos melhores e piores actos e qualidades são ignorantes os nossos mais íntimos amigos! Por quantas virtudes que realmente não possuímos nos admira o mundo, e por quantos vícios, dos quais realmente não somos escravos, nos condena? Não há senão uma pequena parte de nossos actos e pensamentos malvados que realmente sai à luz, do mesmo modo que é pequeno o número de bondades redentoras visíveis. A maior parte é unicamente visível por Deus.
Portanto, seremos justos ao julgar outros homens unicamente quando nos mostremos caritativos; e devemos assumir a prerrogativa de julgar aos outros unicamente quando esse dever nos seja imposto, dado que com quase total segurança erraremos, e sérias serão as consequências que se derivarão do nosso erro. Nenhum homem deve cobiçar o ofício de juiz, pois ao aceitá-lo assume a responsabilidade mais grave e opressiva. E sem embargo, tu assumiste-la, e todos a temos assumido, pois o homem está sempre pronto a julgar e está sempre pronto a condenar o seu vizinho, ao mesmo tempo que se absolveria a si próprio pelos mesmos factos. Trata, por isso, de exercer o teu dever cautelosa e caritativamente, pois de contrário, ao submeter o criminoso a juízo, cometes um mal cujas consequências devem ser igualmente eternas.
As faltas, crimes e desvarios de outros homens não carecem de importância para nós, outrossim fazem parte do nosso universo moral. A guerra e o derramamento de sangue longe de nós, assim como as fraudes que não afectam directamente o nosso interesse pecuniário, não deixam de afectar os nossos sentimentos e minar o nosso bem-estar moral. Estes factos afectam muito a um coração consciente. O olho público pode olhar despreocupadamente sobre a miserável vítima de um vício, e essa ruína de ser humano pode provocar uma explosão de riso e de escárnio. Mas para o maçom o que está perante os seus olhos é uma forma sagradamente humana; é um irmão que errou; é uma alma desolada, desesperada e abandonada; e os pensamentos do maçom a respeito do pobre mendigo estarão bem longe da indiferença, do ridículo ou do desdém. Todas as ofensas humanas, todo o sistema de desonestidade, indiferença, duplas intenções, piedade proibida e ambição intrigante sob cuja influência os homens lutam uns com os outros, será compreendido por um maçom sensato não unicamente como o cenário de afãs perversos e lutas, mas também como o conflito solene de mentes imortais cujas consequências são vastas e transcendentes como aqueles que o protagonizam. É uma luta triste e ignominiosa, e bem pode observar-se com indignação; mas essa indignação deve transformar-se em piedade. Pois as apostas que estes jogadores fazem não são as que eles imaginam, nem tão pouco as que acreditam estar a ver. Por exemplo, este homem que luta por um pequeno cargo, e o ganha, na realidade ganhou com intriga, calúnia, engano e falta de caridade.
Os homens bons estão realmente orgulhosos da sua bondade. São respeitáveis, a desonra não os incomoda, a sua moderação goza de peso e influência, as suas roupas estão imaculadas e o venenoso alento da calúnia nunca se verteu sobre a sua fama. Quão fácil é para eles olhar com desdém o pobre e degradado criminoso, ultrapassá-lo com passo dianteiro e arregaçar as calças para que não se manchem na imundície! E sem embargo o Grande Mestre da Virtude não procede assim, antes porém rebaixa-se ao trato familiar com vadios e pecadores, com a mulher samaritana, com os proscritos e párias do mundo hebreu.
Muitos homens sentem-se melhor na medida em que podem detectar pecado nos demais. Quando se assomam ao catálogo de desafortunados excessos no temperamento ou na conduta do seu vizinho, amiúde, ao mesmo tempo que mostram grande preocupação, sentem-se secretamente exultantes, pois isso destrói todas as suas pretensões de sabedoria e moderação, inclusivamente de virtude. Muitos, inclusivamente, recriam-se com os pecados dos demais, e isto é o habitual naqueles cujos pensamentos se entretêm em agradáveis comparações com as suas próprias virtudes e os pecados do próximo.
O poder da amabilidade vê-se demasiado pouco no mundo, vê-se pouco a influência invisível da piedade, o poder do amor, o domínio da doçura sobre a paixão, a majestade soberana desse perfeito carácter que junta a uma profunda censura uma caridosa piedade pelo criminoso. Mas é assim que o maçom deve tratar os seus irmãos desencaminhados. Não com amargura, nem com cordial ligeireza, nem com indiferença mundana, nem com frialdade filosófica, nem com uma consciência lasciva que encontre tudo bem e que seja bem aceite pela opinião pública, senão com caridade, e amorosa e piedosa amabilidade.
O coração humano não se inclinará voluntariamente perante o que há de obscuro e mesquinho na natureza humana. Se o coração se enternece perante nós, deve enternecer-se perante o que há de divino em nós. A maldade do meu vizinho não pode submeter-se à minha maldade; os seus apetites, por exemplo, não podem submeter-se à minha fúria contra os seus vícios, pois os meus defeitos não são o instrumento para corrigir as suas faltas. E por isso reformadores impacientes, pregadores denunciantes, acusadores inflexíveis, pais enfadados e em geral familiares irritáveis não conseguem, cada um ao seu redor, emendar os comportamentos extraviados.
Uma ofensa moral é doença, dor, perda e desonra no que de imortal há no homem. É culpa, e miséria acrescida à culpa. É calamidade em si mesma, e acresce sobre ela mesma a calamidade ainda maior de ser condenada por Deus, o aborrecimento de todos os homens virtuosos e a própria reprovação da alma. Trata fielmente, mas com paciência e ternura, este mal! Não é digno de converter-se em provocação, nem de tornar-se em querela, nem de acender a tua irritação. Fala cortesmente a teu irmão que erra. Deus compadece-se de ti: Cristo morreu por ele, e a Providência aguarda-o. A piedade do Céu busca-o e os espíritos celestes estão prontos a recebê-lo de novo com alegria. Faz com que a tua voz soe em uníssono com todas essas potestades que Deus está empregando para recuperá-lo!
Se alguém te defrauda, e exulta por isso, é o ser humano que mais piedade deve despertar, pois infligiu a ele próprio uma ferida muito mais profunda do que aquela que te infligiu a ti. É a ele, e não a ti, a quem Deus observa com reprovação e compaixão ao mesmo tempo, e o Seu juízo deveria ser a tua lei. Entre todas as bênçãos desde o monte Sagrado não há nem uma para este homem, todavia, para o misericordioso, o pacífico e o perseguido as bênçãos derramam-se prodigamente.
Todos somos homens de semelhantes paixões, inclinações e tentações. Há elementos em todos nós que poderiam ter sido pervertidos, através de sucessivos processos de deterioração moral, até desembocar no pior dos crimes. O delinquente empurrado para o cadafalso pela multidão vociferante não é pior do que aquilo a que qualquer um dessa multidão poderia ter chegado perante circunstâncias semelhantes. Sem dúvida, deve ele ser condenado, mas sob profunda compaixão. Ser vingativos, inclusive com os piores criminosos, torna-nos fracos e converte.nos em pecadores. 
Devemos muito à boa Providência de Deus, que nos dotou com muito mais virtude do que maldade. Mas todos transportamos dentro de nós o que nos poderia levar aos mesmos excessos, fazendo-nos cair, como ele, com alguma tentação. Talvez tivéssemos cometido actos que, proporcionalmente à tentação ou provocação, pudessem ser menos desculpáveis do que o seu grande crime. A silenciosa piedade e comiseração pela vítima deveria juntar-se ao nosso repúdio pela culpa. Inclusivamente o pirata que assassina a sangue frio através dos mares, é um homem como tu ou eu o poderíamos ser. O orfanato na infância, ou uns pais depravados e dissolutos, ou uma juventude sem amigos, ou as más companhias, ou a ignorância e impossibilidade de cultivar-se moralmente; as tentações do prazer pecaminoso ou a pobreza extrema; a familiaridade com o vício; um apelido maldito e vilipendiado; sentimentos feridos e destroçados; situações desesperadas; estes são os passos que podiam ter levado a qualquer um de nós a desfraldar a sangrenta bandeira de desafio universal sobre os quatro mares, a declarar a guerra aos da nossa espécie, a viver a vida e morrer a morte do pirata temerário e sem remorsos. Os afectos que recebeu inspiram-nos compaixão com a sua falta de sorte. A sua cabeça descansou uma vez sobre o regaço de uma mãe. Por uma vez foi alvo de amor familiar e carinho caseiro. Talvez que a sua mão, desde então vezes sem conta manchada de sangue, tenha tomado outra pequena mão amorosa no altar. Compadece-te dele, pois, e compadece-te das suas esperanças de felicidade e do seu coração destroçado. É próprio de criaturas frágeis e imperfeitas como nós actuar assim; deveríamos lamentar o crime, mas lamentá-lo como criaturas débeis, tentadas e resgatadas. Pode ser que quando Deus avalie os crimes dos homens, tenha em consideração as tentações e as circunstâncias adversas que os conduziram a eles, e as oportunidades de cultura moral do delinquente; e pode ser que as nossas próprias ofensas pesem mais do que esperamos, e as do assassino sejam mais leves do que considerou o juízo dos homens. Portanto, e tendo em conta tudo o que fica dito, que o verdadeiro maçom nunca esqueça esta norma solene, que deve ser observada em todas as situações: “não julgueis se não quereis ser julgados, pois que com a mesma regra com que medis os outros, assim sereis vós próprios medidos”. Tais são os ensinamentos que promulga o Preboste e Juiz.

(1)Os termos de facto e de direito são figuras legais do direito anglo-saxão. Quando um jurado decide de facto pronuncia-se se um facto aconteceu ou não. Quando o faz de facto e de direito pronuncia-se também sobre a consideração legal do facto. Se um jurado chega à conclusão de que, por exemplo “uma criança de cinco anos foi abandonada durante horas”, está-se pronunciando de facto. Se além disso tem poder para decidir que esse facto constitui um delito de negligência por parte do seu tutor, então decide de facto e de direito. (nota do autor)

(tradução livre de Agostinho Costa)

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

GRAUS INEFÁVEIS

Alberto d'Assumpção


Mestre Secreto
Cabe ao Mestre Secreto fazer ver ao neófito a seriedade do seu juramento e todas as implicações.
A obediência pressupõe silêncio e diligência. No silêncio pode o aprendiz refletir no que houve. Dialogar consigo mesmo e forjar o seu carácter habituando-se, se necessário, a para além dos silêncios, a saber recalcar e calar qualquer ressentimento.
Obedecer em silêncio também revela a importância da sobriedade, do decoro, e da contenção. Adquirindo estes valores, saberá mais tarde como liderar e comandar.
Perceberá que das maiores misérias humanas pode nascer a luz. Assim reflete sobre caridade, benevolência, paciência, decoro, consideração, respeito, caridade, e outros pequenos detalhes que a avó, através de um chá e uns bolinhos, nos transmitia.

Mestre Perfeito
O Mestre Perfeito deve fazer jus ao seu título, ser um exemplo de trabalho e honestidade.
Pelo trabalho árduo e dedicado, retribui um pequeno grão de tudo o que a vida lhe proporciona, gerindo sinergias no seio do grupo a que pertence. Pelo exemplo, será mais facilmente aceite pelos irmãos, seja como par ou primo interpares. A liderança conquista-a pelo respeito gerado. Ao atuar a honestidade, põe-se ao nível com a retidão do fio-de-prumo.
Uma vida segundo estes princípios será bem preenchida e faz merecer uma passagem ao Oriente Eterno com a consciência do dever cumprido, consigo e com o seu semelhante. Tanto o trabalho como a honestidade são ferramentas essenciais que embelezam a construção do templo. São peças determinantes numa vida virtuosa apta para as mais belas construções.

Secretário Íntimo
O Secretário Íntimo tinha de zelar pelo bem-estar de Salomão. Os seus desejos mais íntimos, antecipar os seus anseios, protegê-lo de inimigos mais improváveis.
Para tal é-lhe exigido uma lealdade a toda a prova, mesmo que sacrifique a própria vida. Algo paralelo ao pensamento que prestamos aquando da iniciação. Algo que vem sendo desrespeitado na nossa Ordem ultimamente.
Devia zelar pelo bem-estar de Salomão em todos os aspetos, como devemos zelar para que os landmarks sejam cumpridos e os rituais respeitados. Tudo isto num desapego (prefiro esta palavra a desinteresse) próprio. Desapego das medalhas prebendas, e outros afagos profanos que mascaram e denigrem a vocação, a dedicação e a abnegação. Estas últimas não carecem de recompensa material. No entanto, materializam o esperado da ação do homem de bem ou de bons costumes. O desapego da recompensa material é diminuto perante o afago do bem que se propaga no mundo, passo a passo, mas sempre com o ideal da paz universal gerado pela virtude, pela tolerância, pela verdade.

Preboste ou Juiz
Salomão era considerado um grande juiz (o maior, até) na antiguidade. Ficou no uso linguístico a expressão “sentença salomónica”, em francês “le juste milieu”, o meio caminho ideal.
Poderia arriscar falar de justiça ideal para pobres e ricos, fracos e fortes, débeis e poderosos, patrões e assalariados. Ser juiz é um fardo. Depende muito do zeitgeist – o espírito dos tempos. Hoje em dia é alvo de pressões atrozes da comunicação social, das grandes corporações, etc. Precisa ter uma bagagem enorme, sociológica, psicológica, ética, cívica, e acima de tudo, empática.
Tem de saber pôr-se no lugar do réu e inferir dos motivos que originaram a delinquência, para que a equidade, mãe de toda a justiça, seja honrada. Ao preencher pelo menos estes requisitos, a sentença será lavrada de maior presteza e aí será uma honra ter exercido a função de juiz.
A toga tem de ser feita de um material ético, intelectual, caridoso e honesto. Sem estes valores, será apenas um tecido.

Intendente dos Edifícios
Qualquer trabalho que se queira bem feito necessita de pontualidade. O Mestre Hiram era o primeiro a estar presente, fossem quais fossem as condições atmosféricas, todos os dias era o primeiro a chegar e o último a partir.
Observava o trabalho dos vários grupos de talhadores, incrustadores, polidores, metalúrgicos, e zelava pelo bom andamento da construção do templo. Corrigia o que havia a corrigir, combinando as várias possibilidades de resolução dos problemas emergentes. Despedia os incompetentes. Transferia pessoas entre equipas. Corrigia os mestres e se necessário devolvia-os à condição de aprendizes.
A sobriedade e a temperança necessárias eram-lhe mais necessárias ao dialogar com Salomão e ao enfrentar as intrigas de poder espiritual e outras forças mal intencionadas que viviam de intrigas de poder.
No final foi aclamado, respeitado, e celebrado por 100000 obreiros. Estes retribuíram ao Mestre a devoção que este tinha pela obra. Ser um exemplo, não exigir nada ao outro que não exigimos a nós próprios, aprender com os nossos erros, ter a honestidade e a abertura para aprender com os outros, mesmo que em teoria nossos
inferiores. Enfim, reconhecer a nossa ínfima expressão com que viemos ao mundo e dar graças por, ao existir, podermos contribuir para uma consciência universal que talvez um dia nos faça levantar o céu e nos tornarmos merecedores do reconhecimento do Grande Arquiteto do Universo, pela obra que, com desapego das coisas terrenas, ajudámos a construir.

Essa será a nossa melhor morte e a nossa virtude o verdadeiro portal.

ELBF04

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O Silêncio

Izabella Pavlushko

O Silêncio

Depois de ter recebido a notícia que a minha candidatura à Associação Albert Pike tinha sido aceite, foi-me dito que esta fase era dedicada ao silêncio. Recordei que em 2002 quando fui iniciado nas denominadas Lojas Azuis estive dois anos sem poder “falar” durante as SS:. Iniciei a minha viagem de quase 170 quilómetros em direcção ao Porto e vinha a meditar sobre o que poderia estar relacionado com este tema, o silêncio. Meditar sobre o que significaria o percurso de entrada numa Loja de Perfeição ou de graus inefáveis.Tive que ir consultar o dicionário para ver o significado de tal palavra, visto não ser usual no léxico do português comum. Só me vinha à memória Paul Simon & Art Gurfunkel, the Sounds of Silence, “ Hello darkness my old friend I’ve to come to talk with you again (…)" Chegado ao Porto fui recebido em local previamente designado por um grupo de homens, dos quais eu só conhecia um. E dali a momentos iniciou-se a cerimónia. Depois daquela iniciação verifiquei que estava num seio de irmãos de elevada qualidade, de irmãos com conhecimentos diversificados oriundos de diversas áreas do conhecimento e do saber fazer. O local e a sua decoração eram extraordinariamente diferentes, e a sua decoração de uma beleza simples e eficazmente demonstrativa do novo caminho. Como diferentes são as posições que determinados membros ocupam em comparação com o que até aqui tinha conhecido. E eu em silêncio observava toda esta nova ordem de acontecimentos. Mas, a minha mente não estava em silêncio, estava sim numa ensurdecedora azáfama de apreender tudo o que me estava a ser transmitido. Uma verdadeira dicotomia. O silêncio e a azáfama da minha mente! Até àquele momento só conhecia a teoria da tábua rasa (1) . Estava naquele meu caminho partindo do zero, queria que a minha mente estivesse em branco e dali fosse em silêncio apreendendo o conhecimento que me era agora transmitido. Cerca do final da cerimónia ouvi o T:. V:. P:. M:.falar no rio Letes ou o rio do esquecimento e imediatamente nos elucidou sobre a Lenda do Rio Letes, ou rio do esquecimento. Fiquei fascinado, porque era exactamente como eu me sentia. Tudo até aquele momento era novo. Diferente do aprendido até então! Mas, o tema do silêncio não me saía da memória, eu sei que comigo é em silêncio que me consigo concentrar e começar uma aprendizagem, outros preferem locais com ruído ou ouvir musica. É em silêncio que estou a ler o Livro “O Homem Que Sabia Contar”(2) e caso dos quatro quatros (4444), e em silêncio recordo o teorema de Pitágoras. Numa pesquisa no motor de busca da internet sobre o silêncio existem cerca de 97 600 000 resultados (0,43 segundos). Desde a obra cinematografica “o Silêncio dos Inocentes”, ou filme “Silêncio” que relata a viagem de 2 padres jesuítas ao Japão. O tema o silêncio das palavras tem cerca de 17 300 000 resultados (0,43 segundos) . Mas, eu escolhi este tema para elaborar o meu Balaústre que deverá ser lido perante uma assembleia de irmãos ilustres, e, seria suposto eu apresentar algo de novo, algo que ainda não tivesse sido escrito, mas, não consigo. Continua na minha memória ainda hoje, como em Março a canção The sounds of Silence do Simon and Garfunkel, “Left its seeds while I was sleeping and the vision that was planted in my brain still remains within the silence of silence. Mas, porquê?  3 Porque o silêncio é algo que pode ser perturbador, é algo que nos altera e faz pensar. E pensar, é muitas das vezes incómodo! Mexe connosco porque é sempre melhor andar em modo automático do que pensar! Pensar pode perturbar, pode fazer-nos questionar tudo e todos. Pelo pensamento podemos questionar até a nossa própria existência e a existência da humanidade! O silêncio às vezes é ensurdecedor quando possivelmente estejamos em reflexão, apesar de estarmos em silêncio poderemos ouvir vozes, mas se estamos em silêncio como ouvimos essas vozes? Apesar do silêncio o nosso cérebro gravou como se de uma fita de um filme áudio visual se tratasse as vozes, as conversas tidas entre nós e vários intervenientes, ou às vezes o que para uns poderá ser ainda mais perturbante o nosso cérebro gravou as nossas vozes interiores e parece que ao ouvi-las nos apercebemos de coisas que até ali não tínhamos valorado, e em silêncio, mas com a dicotomia de estarmos a ouvir as nossas vozes reflectimos num assunto, ou aprendemos como resolver um problema que até a determinado momento não tínhamos encontrado a “solução” para o mesmo. O poder do silêncio é de facto algo pessoal e intrínseco que cada um de nós sente de maneira diferente, o silêncio como método de aprendizagem, o silêncio como indiferença, o silêncio como consentimento. Neste novo caminho que decidi fazer e para o qual fui aceite e reconhecido permaneço em silêncio a ouvir a sabedoria dos meus Queridos Irmãos, e pela transmissão da ritualista do grau permaneço em silêncio, e é em silêncio que eu vou fazendo o meu percurso e apreendizagem, e às vezes em silêncio debato os meus pensamentos que me perturbam ou causam desconforto, quiças na busca de alguma solução para esse “eventual conflito”! Mas, na senda da busca de material para poder elaborar um balancete com o mínimo de qualidade deparei-me que o tema a voz do silêncio (3) não era novidade nenhuma. Helena Blavatsky (4) procurou transmitir como é que os monges tibetanos alcançavam a plenitude espiritual e a perfeita comunhão entre corpo e alma. É por isso que nestes ensinamentos se aprende que «Há só uma senda até ao Caminho; só chegado bem ao fim se pode ouvir a Voz do Silêncio». A escada pela qual o candidato sobe é formada por degraus de sofrimento e de dor; estes só podem ser calados pela voz da virtude. Lê-se no blog COGITO ERGO SUM" (5) que o silêncio é uma virtude aprendida na Maçonaria e deve ser praticado não só nos trabalhos maçónicos, mas na vida profana. Silêncio é a primeira pedra do Templo da sabedoria. No entanto, na minha jornada de 170 kms o que me ficou no ouvido não era a voz do silêncio, mas sim a música “the sounds of silence”, ou seja os sons do silêncio! Decidi fazer a minha viagem ao meu interior, e, perceber por mim o caminho que eu estaria agora percorrer. Na cerimónia, foram-me selados (6) simbolicamente os lábios, não para eu não poder expressar a minha vontade, mas, “para me proteger”, para que eu pudesse apreender em silêncio e reflexão do percurso acabado de iniciar. Ou seja, foi como se de um lacre aposto num documento classificado de “secreto” (7) se tratasse. Em silêncio reflecti que me deveria tornar perfeito na minha caminhada, ser zeloso, combater o vício, ser justo e intimamente reflectir sobre os conhecimentos que me foram transmitidos, para poder dar inicio à decoração ou “embelezamento” de um templo. 

NOTAS:
1. John Locke (1632 – 1704), filósofo inglês, o Empirismo (…)Ele negava radicalmente que existissem idéias inatas, tese defendida por Descartes. Quando se nasce, argumentava, a mente é uma página em branco (tabula rasa) que a experiência vai preenchendo. O conhecimento produz-se em duas etapas: a) a da sensação, proporcionada pelos sentidos, e b) a da reflexão, que sistematiza o resultado das sensações.
2. Malba Tahan - Pseudónimo de Júlio César de Mello e Sousa (1895-1974)professor e autor de 69 livros de contos e 51 de matemática. (O caso dos quatro quatros está desenvolvido no capitulo VII das paginas 33 à 38, e Teorema de Pitágoras pag.107 
3. Helena Petrovna Blavatsky- escritora de Russa editou uma obra dedicada à voz do silêncio traduzida por Fernando Pessoa
4. A voz do silêncio, primeiro fragmento, página 7, Helena Petrovna Blavatsky 
5. Silêncio, http://moraledogma.blogspot.com 
6. cf ritual
7. Mestre Secreto (…) O Segredo é indispensável a um maçom seja qual for o seu grau. Esta é a primeira e quase a única lição ensinada ao Aprendiz Iniciado. retirado de COGITO ERGO SUM,  http://moraledogma.blogspot.com 
8. "Ai de ti, pois, discípulo, se há um único vício que não abandonaste; porque então a escada abaterá e far-te-á cair; a sua base assenta no lodo fundo dos teus pecados e defeitos". in Helena Petrovna Blavatsky, retirado de http://moraledogma.blogspot.com  

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O DEVER DO SILÊNCIO

Olga Dmytrenko

O DEVER DO SILÊNCIO
Na bíblia, podemos verificar que é no silêncio que escutamos o nosso Deus. Em todos os textos que tive a oportunidade de estudar sobre o dever do silêncio, verifico que o ruído atrapalha-nos a escuta física, assim como a escuta da gnose, o ruído a que me refiro, não se trata da poluição sonora, mas o ruído do nosso primeiro inimigo, aquele que todos observamos no espelho, no dia da nossa iniciação no primeiros grau. Este é, e será sempre o ruido mais ensurdecedor com que teremos de conviver até partirmos para oriente eterno, é aquele que deve ser talhado até ficar como uma pedra polida, até ficar como o mais sublime som da gnose. No entanto, repare-se que o mundo está cheio de barulhos: veículos, a voz de multidões, o barulho das cidades, os animais, as arvores, etc, é um constante frenesim para a nossa consciência, pois no acessório, tudo atrapalha, tudo chama a nossa atenção, tudo nos distrai. Mas com o estudo e conhecimento, conseguirmos abstrair-nos deste ruido, obteremos o dito silêncio, conseguiremos acalmar e focar no mais importante, poderemos escutar o verdadeiro silêncio, instrutor da sapiência divina, aquele que interessa ouvir. Várias culturas têm o habito de praticar esta fantástica ferramenta, o dever de ficar em silêncio durante momentos, torna-nos mais disciplinados, clarifica-nos a mente e aumenta-nos a clarividência. A temporada em que estamos em completo silêncio desde aprendizes a companheiros, assim como na qualidade de mestres, a maior parte do tempo, onde me incluo, deve ser constante e profundo no nosso Ser, no nosso Eu, deve ser como o ato de revelação da Luz, para que possamos cumprir algumas premissas do inquérito de S. João, devemos então enterrar os vícios e exaltar as virtudes, sendo o dever do silêncio uma das maiores virtudes que o ser humano possui, é aqui que nós mestres, devemos mostrar o nosso verdadeiro “Eu”, é esta a subida da escada de Jacó. Falar demais, sem cuidado, não é bom. Quando paramos de falar e ficamos em silêncio, passamos a ouvir com atenção. O silêncio aprofunda o nosso relacionamento com Deus e com os outros. Na bíblia em Eclesiastes, versículo 5, paragrafo 2 e 3, diz; “Não seja precipitado de lábios, nem apressado de coração para fazer promessas diante de Deus. Deus está nos céus, e você está na terra, por isso, fale pouco. Das muitas ocupações brotam sonhos; do muito falar nasce a prosa vã do tolo.” Em Tiago, versículo 3, no paragrafo 2º, diz, “Todos tropeçamos de muitas maneiras. Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito, sendo também capaz de dominar todo o seu corpo.” Como Mestres Maçons, todos interiorizamos que a oportunidade de usar a palavra, deve ser, além de extrema importância, carregada de sabedoria e usada unicamente quando é absolutamente indispensável, correndo o risco de usarmos a palavra para fazermos ruido naqueles que nos escutam. A principal lição do dever do silencio que devemos retirar, enquanto Mestres Maçons é que a palavra deve ser usada com mestria. Mas como em quase tudo na vida, cada um é como cada qual e todos evoluem ou podem fazê-lo. Há aqueles que quase não precisaram de estudar esta lição, por temperamento são pessoas caladas, reflexivas, ponderadas, que raramente falam e, quando o fazem, são, precisamente pela raridade da situação, muito atentamente ouvidos. Há pessoas que quase nunca falam a despropósito, mas algumas vezes, precisamente pelo seu particular zelo na seleção das palavras deixam de dar contributos preciosos, se partilhados no momento próprio. Há outros que, pelo contrário, são de natureza interventiva, não deixam de dar a sua opinião, não temem estar em minoria, entendem que participar, implica opinar, contribuir, ainda que por vezes apenas marginalmente. Esses correm o risco de se equivocar algumas vezes, de opinar sem o conhecimento ou a ponderação adequada, de darem a impressão de que, sobretudo, gostam é de ouvir a própria voz, estes tendem a ser a maioria. Há um encontro entre o dever, o dever de ser, de ser do silencio com os deveres enquanto homens, entes estão na dignidade, na dignidade de sermos humanos, diferentes de todas as classes animais, este encontra-se no valor de que se reveste tudo aquilo que não tem preço, ou seja, não é passível de ser trocado por algo que possa parecer idêntico. Dessa forma, a dignidade é uma qualidade inerente aos seres humanos enquanto entes morais: na medida em que exercem de forma autônoma a sua razão prática, os seres humanos constroem distintas personalidades humanas, cada uma delas absolutamente individual e insubstituível. Concludentemente, a dignidade é totalmente inseparável da autonomia para o exercício da razão prática, e é por esse motivo que apenas os seres humanos se sobrevestem de dignidade, é por este motivo, o da dignidade humana que o dever do silencio deverá ser uma constante de trabalho afincado na profundidade no nosso Ser, do nosso Eu. Há várias escrituras no passado que declararam, “As palavras terminam onde começa a verdade”.

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CONHECIMENTO E A SABEDORIA

Alberto d' Assumpção

A sabedoria, pode ser vista para o Desenvolvimento do Homem como experiência na pragmática fundamental da vida para organizar o nosso pensamento mais perspicaz e humano. Um julgamento sábio deve refletir a perceção da natureza humana, justiça, conveniência e assim por diante. A conceção de equilíbrio da sabedoria pode enfatizar a capacidade de fazer julgamentos complexos sobre o bem comum refletindo conhecimento explícito e tácito, são julgamentos que equilibram um conjunto de fatores potencialmente conflitantes de curto e longo prazo. Outras perceções podem elucidar a ação sábia, estabelecendo a sabedoria como muito indescritível e uma qualidade pessoal. Há autores que destacam várias características da ação inteligente, como lidar geralmente com assuntos humanos complicados e especialmente interpessoais, contrastando com ações que são apenas astutas, expedientes ou inteligentes, e manifestando desinteresse, compaixão, empatia e bom timing para fazer a diferença. Numa recente dissertação profunda sobre sabedoria, o autor Rowson (2009) argumenta que as ações sábias e julgamentos dependem particularmente da liberdade de uma variedade de ilusões do eu, o que nos impede de ver claramente. Para generalizar, as diferentes visões de sabedoria mostram um parentesco notável, mas tendem a não mostrar as mesmas características, como de fato, vistas como conhecimento ou informação. No lado positivo, certamente áspero de definições e contrastes servem para aprofundar o nosso senso de informação, conhecimento e sabedoria. No entanto, queremos saber o que é o oposto do conhecimento? Ignorância, desinformação, estupidez e assim por diante. Também fazem parte da cultura, das artes populares como cinema e literatura, bem como folclore tradicional, todos se envolvem com ignorância, estupidez e erro. Existem muitas teorias na literatura sobre inteligência e sabedoria, tais como teorias psicométricas, teorias cognitivas, teorias genético-epistemológicas e teorias sociopsicológicas.
Há muitas tentativas de medir a inteligência e muito menos com testes de criatividade, apesar de muitos desentendimentos nesses testes. Quanto à sabedoria, não há testes até o momento para justificar qualquer desacordo.
As teorias implícitas podem ser úteis no desenvolvimento de uma estrutura conceitual para definir a sabedoria. “As teorias implícitas são construções de pessoas que residem nas mentes desses indivíduos. Tais teorias precisam ser descobertas em vez de inventadas porque já existem de alguma forma, na cabeça das pessoas” (Sternberg, 1985). A maneira mais simples e direta de encontrar tais teorias implícitas é perguntar às pessoas o que elas são.
Confúcio, nos Analectos, postula que a sabedoria envolve a justiça, e que as pessoas sábias são conhecedoras do Caminho (Tao). Sabedoria no budismo é uma forma de iluminação (nirvana) em que um entenderia e levaria a vida de acordo com o que é "certo". Aristóteles sustenta que a prática e a sabedoria representam a capacidade de decidir bem em relação à conduta da vida.
O conhecimento é necessário, mas não é suficiente para a sabedoria. Ou seja, para ser sábio é preciso ser experiente, mas ter conhecimento não faz um sábio. O conhecimento pode inibir, a busca de sabedoria ofusca as perspetivas e, consequentemente, as mudanças positivas. Por isso, destaca a importância da reflexão crítica e do bom senso.
A aquisição de sabedoria envolve um processo extenso e intenso de
aprendizagem, prática e busca de excelência. Processos múltiplos e interrelacionados são esperados na geração de sabedoria. Há aspetos integradores do conhecimento e da virtude, as precondições do desenvolvimento da sabedoria, que incluem elementos cognitivos, motivacionais, sociais, interpessoais e espirituais. O domínio da vida crítica, a experiência, orientação de mentores, experiência e influências sociais também são fatores cruciais na sabedoria e no desenvolvimento.
O conhecimento e julgamento relacionado com a sabedoria é coletivo e socialinterativo de várias maneiras. A sabedoria é socialmente interativa dentro das comunidades humanas. Por exemplo, as pessoas tendem a procurar conselhos de pessoas altamente valorizadas para os seus problemas difíceis da vida. Às vezes, essa consulta pode ocorrer nas nossas cabeças, onde simulamos que outros podem aconselhar ou fazer em particular situações difíceis na vida.
Ativar e aplicar sabedoria requer mentes interativas; aplicando o conhecimento relacionado com a sabedoria e o julgamento para situações de vida difíceis e incertas provavelmente envolve mais de um indivíduo. Isto porque o corpo de conhecimento e habilidades pode ser considerado muito grande e complexo para ser retido por uma mente sozinha. Avaliar e validar a sabedoria também requer mentes interativas. Como não há uma definição absoluta de sabedoria, a sabedoria só pode ser reconhecida e atribuída por consenso, como tal, um acordo na maioria subjetiva torna-se essencialmente objetiva. No entanto pode-se diferenciar duas formas básicas de mentes interativas, ou seja, o diálogo externo e interno. O diálogo externo acontece entre duas ou mais pessoas, onde o conselho é dado à busca individual assistência. O diálogo interno ou virtual, por outro lado, refere-se ao diálogo individual, ou seja, pensar o que os outros podem fazer ou dizer sobre o problema em questão. Em suma, é uma simulação mental. Mesmo assim, ambos os mecanismos são conducentes a melhorar o julgamento e, consequentemente, desenvolver a sabedoria.

BIBLIOGRAFIA
Sternberg, R.J.(1985). Implicit Theories of Intelligence, Creativity, and Wisdom. Journal of Personality and Social Psychology, 49, 3
Sternberg, R.J. (1998). A Balance Theory of Wisdom. Review of General Psychology, 2, 4.
Sternberg, R. J. (1999a). The theory of successful intelligence. Review of General Psychology, 3, 4, 292-316.
Baltes, P.B., and Staudinger, U.M. (2000). Wisdom: A Metaheuristic (Pragmatic) to Orchestrate Mind and Virtue towards Excellence. American Psychologist, 55, 1
Chen, M., Ebert, D., Hagen, H., Laramee, R., van Liere, R., Ma, K. L.,
Ribarsky, W., Scheuermann, G. and Silver, D. (2009). Data, information and knowledge in visualization.
http://homepages.cwi.nl/~robertl/articles/cga2009.pdf Downloaded on 2011/9/5
Baltes, P. and Smith, J. (1990) Toward a psychology of wisdom and its ontogenesis. In Wisdom, Its Nature, Origins and Development (Sternberg, R., ed.), pp. 87–120, Cambridge University Press, New York
Baltes, P. and Staudinger, U. (2000) Wisdom: A metaheuristic (pragmatic) to orchestrate mind and virtue toward excellence. American Psychologist 55, 122–136
Sternberg, R.J. (1998) A balance theory of wisdom. Review of General Psychology 2, 347–365
Claxton, G. (2008) Wisdom: Advanced creativity? In Creativity, Wisdom, and Trusteeship: Exploring the Role of Education (Craft, A., Gardner, H. and Claxton, G., eds), pp. 35-48, Corwin Press, Thousand Oaks, CA
Rowson, J. (2009) From Wisdom Related Knowledge to Wise Acts:
Refashioning the Concept of Wisdom to Improve Our Chances of Becoming
Wiser, Ph.D. Thesis, University of Bristol, Bristol, U.K


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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Transmissão do Saber


Por vezes dou comigo a pensar porque não disse determinada coisa a um aluno e disse a outro sobre o mesmo aspecto ou o mesmo problema. Passados mais de trinta anos de ensino, além da memória selectiva normal da idade, há decididamente uma seleção natural a quem, como e que nível de saber se transmite, mesmo sem pensar nisso.

O acesso á informação e ao conhecimento deve ser igual para todos. Depois há que zelar para que os diferentes níveis de conhecimento mereçam da parte do neófito de acordo com o seu mérito académico, nível de empenho mas, no meu caso, zelo para que seja digno como homem ou mulher, dos mais altos níveis de saber. O edifício tem de ser erigido sobre terreno fiável, alicerces consistentes e perenes, para que não possa soçobrar sob as maiores tempestades. Antes de ser belo tem de ser forte nos valores que o sustentam

A beleza da obra final será tanto maior quanto os seus raios se alimentem de energia poderosa. Sobre os ombros do intendente cai a responsabilidade da história dos tempos o sofrimento de tantos e a morte do mestre dos mestres. A memória justa exige o maior desvelo na procura do saber mas um ainda maior cuidado na sua transmissão para que só os justos possam continuar a construção do templo.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Justiça


A sentença de Salomão', tapeçaria de Almada Negreiros

Justiça e o estudo da história da humanidade confundem-se com a presença da Maçonaria que correu em socorro dos infelizes e sacrificados judeus. A Maçonaria e seus agentes , partiu, em nome do direito das gentes e da igualdade dos povos, para uma luta fiel, leal e corajosa contra a tirania, esta luta resultou com a derrubada de um dos grandes monstros que infelicitavam a humanidade – através da queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789. Foi seu período de grandiosidade, em que a DECLARAÇAO DOS DIREITOS DO HOMEM criou os ideais sagrados de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, que vieram a se constituir nos supremos landmarks da ordem.
E dentro da história brasileira  e sobre a Extinção da Escravatura, todos os acontecimentos desde 1826 a 1888, tiveram a participação da Maçonaria, quer direta ou indiretamente, através de seus membros que ocupavam altos cargos no Império, culminando com a participação do Maçom Rodrigo Augusto da Silva, Ministro da Agricultura, que compareceu perante a Câmara, onde leu:
“Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação: Venho em nome de sua Alteza e Princesa Imperial Regente, em nome de sua Majestade o Imperador, apresentar-vos a seguinte proposta:
Art. 1º - É declarada extinta a escravidão no Brasil
Art. 2º - Ficam revogadas as disposições em contrario.
Palácio do Rio de Janeiro, em 8 de maio de 1888.
Rodrigo Augusto da Silva.”
As Lojas Maçônicas são luzes da comunidade, buscam através da atuação de seus membros, praticar os atos necessários, para que a justiça social seja fato presente e constante em nossas atividades, pelo trabalho desinteressado de seus Iniciados. A Maçonaria hoje, mais evoluída e cristianizada – resume sua filosofia na tríade sublime: VERDADE, BELEZA E BONDADE; seu ideal político, nas palavras: LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE, englobando tudo, enfim, em: DEUS, VIRTUDE e CIÊNCIA. Onde houver um maçom, seja no Governo Nacional ou nas Câmaras, nas Juntas Municipais, nas Repartições Públicas, nos Consultórios Médicos ou nos Tribunais, nas Escolas ou no Comercio, enfim, aí estará algum pregoeiro da paz e da Justiça Social, através do exemplo, do trabalho, da moralidade no trato da coisa publica e da preservação dos bons costumes.

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Conhecimento

Templo de Apolo, em Delfos

Conhecimento é ter consciência dos seus afim de repará-los e evitar o mal. Na estrada de evolução de um Ir.˙. o conhecimento é fonte de riqueza emocional.
A Maçonaria Universal baseia sua filosofia na arte de construir, tendo como tarefa aperfeiçoar a estrutura da ciência maçônica. Utiliza para esse fim as alegorias e os símbolos dos construtores medievais que edificaram as grandes catedrais da Europa deste período.
Por isso os símbolos da maçonaria são os de pedreiro e os de arquiteto. Estes instrumentos são herança da maçonaria primitiva. A interpretação do significado da maçonaria é a de que a Instituição é a construção, e o Maçom, o seu artífice.
Segundo Sócrates, grande filósofo e pensador grego, a qual serviu de norte, tanto para a sua trajetória, como para a sua pregação filosófica, que é: “CONHECE-TE A TI MESMO”. A verdade é que a atividade de pensar confere asas ao maçom para mover-se, e raízes para aprofundar-se na realidade do mundo em que vivemos.
René Descartes, grande filósofo francês, cunhou o seguinte pensamento: “Se duvido, penso; se penso, existo”, ou seja: “COGITO, ERGO SUM” – penso, logo existo. Portanto, não se alcançará o conhecimento sem a observância dessas premissas, a qual precede até mesmo o primeiro passo.
Os maçons são os próprios sujeitos da formação do conhecimento maçônico.
Devemos ser sempre aprendizes,  e simplesmente, viver ... Simplesmente, observar tudo à sua volta ... Simplesmente captar a importância de tudo o que acontece em nosso redor, porque tudo é importante, uma vez que faz parte da vida ...
O Conhecimento é um caminho que vamos percorrendo, adquirindo a pouco e pouco aquilo que ainda não sabemos, diferentemente da Sabedoria, que é aquilo que faz parte de nós, do nosso inconsciente, do que já processamos no intelectual e no emocional. O conhecimento nos permite autodefesa, a sabedoria nos alerta para o autocontrole.
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Zelo

Estátua de Nicodemos no Adro do Bom Jesus, Braga

Sabemos e devemos compreender que o GADU criou as pessoas para que sejam amadas e as coisas para cuidar, por que amamos as coisas e usamos as pessoas? O zelo na concepção da vida é o que podemos fazer para mantermos as pessoas , os IIr.˙.   que vivem conosco bem cuidadas, emocional e socialmente, mas um dos principais inimigos do zelo ao próximo é a vaidade.
Existem diversas formas de exercer o bom zelo pela existência e pelo bom viver, e imensos esforços para tornar suas próprias vidas mais interessantes, todas estas formas passam inevitavelmente pelo aceite ao próximo, pela capacidade de olhar para si , mas não ver apenas o que se olha, procurar compreender as razões que levam uma pessoa a ter mais ou menos presença.
O zelo pela vida alheia, tem o querer “se engrandecer” sobre as falhas dos outros e não percebe que isso  caracteriza  gente miúda, que na tentativa de sentir-se bem, precisa preencher seu vazio com o conteúdo dos outros !
O Zelo pela ótica da boa conduta maçônica foi representado pelo hino maçônico brasileiro, que foi elaborado pelo Imperador do Brasil Dom Pedro I, e que diz: “... Da luz depósito augusto,recatando a hipocrisia, guarda em si com o zelo santo a pura Maçonaria...”, e figurativamente o zelo santo foi interpretado de uma forma talvez mais resiliente, e considerada por tanto menos filosófica; foi quando Tertuliano argumentou  que a filosofia pagã não tinha nenhuma influência ou mesmo relevância sobre o corpo em desenvolvimento de qualquer teologia revelada. Ele foi ainda mais a fundo, com um zelo fanático que acompanhou sua conversão, suas palavras também transmitiram a sua posição controversa de que as posições mundanas ocupadas pelos antigos filósofos gregos eram totalmente incompatíveis com a perspectiva do mundo cristão. Para Tertuliano, esses dois universos eram totalmente incompatíveis. Tertuliano foi a prova mais eloquente de que o zelo por uma convicção pode macular um entendimento mais sensato sobre qualquer tema, não pode haver zelo por convicções, nem zelo por coisas, a história da humanidade nos comprova que as convicções são por demais frágeis diante dos factos e da evolução humana, e todos os avanços deste mundo tiveram como foco central o ser humano, o zelo pelo dia menos doloso, pela criança menos sofrida, pelo idoso menos infeliz.
Guarda em si com zelo santo a pura Maçonaria.
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Lealdade

Maria de Magdala de Giovanni Girolamo Savoldo

D. Duarte com uma dimensão de código moral e social da nobreza da sua época, valorizava em muito o valor normativo que lhe era conferido nos códigos de comportamento da nobreza: dizia sobretudo respeito à espiritualidade, à sensibilidade, ao coração. Prendia-se antes com a «verdadeira amizade», era a sua base, o seu fundamento . Futuramente foi o tema da lealdade da nação portuguesa ao seu príncipe herdeiro e ao seu rei que deu o inspiração às orações proferidas no juramento do príncipe João, nesta oração em que é aclamado o seu filho :  “maravilha fatal da nossa idade”, D. Sebastião —, o sábio bispo de Miranda e Leiria, na eloquência e elegância da sua doutrinação política, digna de um mestre de príncipes, não deixa de pôr o acento nesta virtude lusa, e numa época em que a fides política recebera forte abalo com as novas concepções de Maquiavel, fez se latente a leitura da Lealdade não apenas por subverniência , mas por invocação divina.
Lembrei-me de ilustrar isto, por que a real concepção de Lealdade não está vinculada a um juramento ou a uma obrigação, os evoluídos IIr.˙. aceitam no seu dia a dia a verdade pela verdade e são leais aos princípios dos bons costumes, não por uma obrigação filosófica ou institucional, mas por uma invocação intelectual e pelo entendimento de que a evolução do homem como agente de um universo mais fraternal passa inevitavelmente pela prática de ações leais ao próximo.
Não é preciso olhar muito distante do convívio diário para percebermos que o ser humano, esconde-se por detrás de títulos, condições e graus acadêmicos, e mantem-se alheios aos princípios mais simples de lealdade, quando procuram se colocar acima dos outros pela titulagem ou aparência, isto é o que mais devemos combater como Maçons, nosso estímulo deve ser estender as mãos não apenas para o cumprimento, mas prolongar relacionamentos pela essência da boa fé.
 Talvez a maioria das pessoas fecham-se em seus nichos por que só gostam das verdades que elas desejam ouvir. E junto com essa característica peculiar, carregam a hipocrisia de se acharem menos egoístas que outros a ponto de se permitirem o direito de criticar aquelas que são diferentes. O maçom dos tempos atuais tem um enorme desafio pela frente, porque as pessoas se tornaram mais egocêntricas como tentativa de defesa .

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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O PROFESSOR COMO MESTRE



O PROFESSOR COMO MESTRE 

Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.

George Agostinho da Silva, in 'Considerações'

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“O Silêncio é de Ouro”



“O Silêncio é de Ouro” - alguém escreveu.
Nos nossos rituais de aprendizes é, a páginas tantas, referido que “(…) as palavras são o meio mais poderoso para comandar os homens”.
Nesta mesma preciosa Fonte é consagrado o valor do Silêncio do Aprendiz, o qual tem por prerrogativa, entre outras, proteger o Iniciado. Até (e, se calhar, principalmente) de si mesmo.
Com efeito, esta norma impositiva talvez comece por nos impressionar, pois não conseguimos imaginar que, uma vez admitidos nos mistérios da Ordem Real, vejamos ser-nos retirado um direito tão aparentemente natural quanto inalienável.
No entanto, com o tempo, e apenas com este e através da prática do Rito, temos a possibilidade de compreender a importância desta regra. Recordemos o estranhamento provocado pelo conhecimento da interdição de falar em Loja: “Então a palavra, a expressão máxima da oralidade, é negada àquele que principia o caminho das supostas Liberdade, Igualdade e Fraternidade? – Através do Ritual, da participação nas sessões rituais e do apoio dos nossos Irmãos Obreiros, conseguimos paulatinamente vir a contextualizar este Silêncio, que começa por nos ser imposto mas do qual, curiosamente, podemos vir a sentir falta. É que, realmente, o Silêncio do Aprendiz protege, possibilita a aprendizagem, convida à reflexão e incute disciplina em todo aquele que se dispõe à sua prática.
Num mundo tão poluído de estímulos sonoros e numa sociedade tão repleta de palavras, o Silêncio em Loja constitui praticamente um não-lugar, fora do espaço e do tempo, uma não-naturalidade que, tal como ao praticante de meditação, começa por gerar um turbilhão de pensamentos que se precipitam em todas as direções, como se de animais indomáveis saídos de todos os lados se tratassem.
Ter oportunidade de apreender estes factos através da consciência provoca invariavelmente alguma ansiedade. Medo até: “Onde é que eu me vim meter?” – Interroga-se o aprendiz, inquietado pela mente que, de forma automática, repetitiva e incessante, procura explicações. Na ausência destas, e da incerteza que daí advém, a “profanidade” parece chamar-nos, com vozes que no Silêncio Ritual se fazem ouvir ainda mais alto. Sentimos que o ego, o velho inimigo que nos mostraram no espelho da Iniciação continua lá, mesmo atrás de nós, pronto para nos confortar à sua velha maneira: egotista, apaixonada, viciosa e viciante.
O Silêncio é assim um desafio simultaneamente enorme e simples, num mundo em constante parafernália. Respeitar esta regra pode ser difícil, monótono, enfastiante até. Mas aceitá-lo e respeitá-lo, praticando-o não apenas em Loja mas, também, no mundo profano, pode ser um exercício tão instrutivo quanto valioso. Se, por exemplo e de forma simples, experimentarmos começar a ouvir as frases que os outros dizem até ao fim, ou então, nos preocuparmos em sermos concisos e assertivos sempre que falamos, tentando poupar os nossos interlocutores a palavras desnecessárias e seguindo o exemplo dos nossos irmãos em Loja, facilmente constataremos que o Silêncio e a sua prática são ferramentas de Virtude, através das quais podemos, como nos dizem os nossos Landmarks, aperfeiçoar-nos e, através de tal, modestamente contribuirmos também para o aperfeiçoamento da Humanidade.
Por isso, agora, nesta etapa de aperfeiçoamento filosófico, regressar ao Silêncio quando até já dispomos do direito de usar da Palavra em Loja e quando, porventura, até podemos já sentir saudades do protetor Silêncio do Aprendiz, desafia-nos a renovarmos a nossa Humildade, Obediência e Fraternidade, qualidades que devem caraterizar todo o Maçon que aspire à qualidade de eterno Aprendiz.
Compreendendo a Sabedoria do Silêncio melhor conseguiremos revestir as nossas palavras com a Força dos metais e a Beleza das colunas do Templo do Bem.
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